Toda atriz precisa de um grande papel para se firmar na carreira. No caso de Flavia Alessandra, intérprete da obsessiva Sandra de "Êta Mundo Bom!", foi a não menos malvada Cristina, de "Alma Gêmea", que injetou ânimo e versatilidade ao seu currículo. Em comum, além de vilãs, ambas as personagens foram criadas por Walcyr Carrasco, um dos novelistas que mais apostaram e instigaram o talento de Flávia nos últimos anos. "Eu estava com saudade de fazer vilã. Há 10 anos não fazia. Mas gosto de viver personagens diferentes. Esse é o grande barato da nossa profissão", anima-se a atriz.
Natural de Arraial do Cabo, Região dos Lagos, no Rio de Janeiro, Flávia está na tevê desde 1989, quando estreou em "Top Model". De lá para cá, acumulou personagens de destaque e protagonistas em tramas como "Porto dos Milagres", "O Beijo do Vampiro", "Duas Caras" e "Salve Jorge", entre outras. O último trabalho que fez foi a controversa "Além do Horizonte", em 2013. "Consegui esse tempo longe da tevê e fiz um filme ano passado, 'Doidas e Santas', que deve ser lançado este ano", adianta.

Sandra é a grande vilã de "Êta Mundo Bom!". O que mais chamou sua atenção em relação ao personagem?
Sandra é uma mulher multifacetada, irônica, irritada, à flor da pele, que não faz cena. Ela ama o irmão e ama a tia porque é rica. É uma mulher bem-resolvida com a vida e com tudo o que tem. Minha personagem tem muito humor, é irônica e ácida. Eu sou assim muitas vezes (risos). Não tenho é o lado das vilanias, mas me divirto quando vejo.

Ernesto, papel de Eriberto Leão, também é vilão e parceiro de Sandra em suas armações. Em algum momento a relação dos personagens descamba para o amor?
Na minha cabeça, poderia ter alguma relação de amor com o Ernesto porque eles são os dois vilões e almejam se dar bem. Quando tivemos um encontro lá atrás com o Walcyr, o Eriberto chegou a dizer que havia uma paixão, um fogo entre os dois personagens. Mas o Walcyr sinalizou que não, que a Sandra não se apaixona. Ela só quer se dar bem mesmo. Mas fogo é o que ela mais tem. Ela usa essa arma de sedução direto e se dá muito bem com isso.

Como foi o processo de composição de Sandra?
Nos inspiramos em várias atrizes. Claro que eu revirei todo o universo de Bette Davis, com aquela secura, aquela ironia e vilania impressionantes sempre dela. Revi filmes de época e assisti a outros novos. Isso tem sido trabalho de casa direto.

Por quê?
Até eu incorporar e tornar automático tudo o que era da época. A gente construiu a Sandra em cima de um "mix" da Marilyn (Monroe) com a Grace Kelly porque a minha personagem tem um lado princesa chique e "classuda", mas com a sensualidade e o fogo da Marilyn. Conseguimos unir as duas.

A Sandra, de "Êta Mundo Bom!", é uma vilã de novela das seis escrita por Walcyr Carrasco, assim como a Cristina, de "Alma Gêmea", que você interpretou em 2005. Existe uma preocupação sua em diferenciar as duas personagens?
Sandra é uma vilã diferente da Cristina. Mas estou tentando trazer as coisas que encantaram o pessoal na época da Cristina e colocar na forma da Sandra. A Cristina era movida pelo amor que sentia por um homem, mas que não era reconhecido. A Sandra quer se dar bem, é ambiciosa e bem pragmática. Não existe um amor ou gostar e ela é bem-resolvida com a sensualidade.

Mas exatamente o que da Cristina você quis resgatar para a atual personagem?
Difícil dizer, mas é no viés da interpretação, as coisas que encantavam mesmo. As pessoas ficam falando: "Você vai fazer uma vilã totalmente diferente da Cristina?", mas eu não quero. Se uma coisa deu tão certo, quero que cresça, que venha com novas facetas.

Aliás, assim como em "Alma Gêmea", você também precisou pintar os cabelos de louro platinado para "Êta Mundo Bom!". Por que a escolha do visual?
O platinado é totalmente a estética da época. Uma das questões dessa escolha é que o Walcyr determinou que a Sandra seria a personagem mais "prafrentex" da trama, a que mais receberia a influência dos anos 1950. E quem ditava a moda eram as divas de cinema.

Você já teve outras experiências com tramas de época. O que mais a atrai em uma novela ambientada décadas atrás?
O fato de ser de época pega a gente por inteiro porque é tudo diferente. Andar, sentar, tudo. A gente fica o tempo inteiro se policiando para não se perder em nenhum momento. Mas é uma delícia. A personagem é cheia de nuances, de gavetas, ironia, é debochada, à flor da pele, calorosa e sensual. Estou apaixonada.

Nova rota
Depois de estrear na tevê em "Top Model", de 1989, através de um concurso promovido pelo "Domingão do Faustão", Flávia Alessandra levou um tempo até acreditar que poderia realmente sobreviver da profissão de atriz. Formada em Direito, ela ainda ficou cerca de 10 anos pagando a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). "Até que minha ficha caiu, vi que tinha dado certo e era um caminho sem volta", conta.
A preocupação em manter um "plano B" até onde foi possível, Flávia credita à sua criação. "Meus pais sempre foram muito rigorosos. Meu pai levantava a bandeira de mulher independente, que eu buscasse meu trabalho, meu salário, minha vida", recorda. (L.B.)

Tal mãe, tal filha
De certa forma, Flávia Alessandra vê sua própria história se repetir na pele de sua filha, a também atriz Giulia Costa. Isso porque, assim como a jovem, Flávia começou a carreira na Globo aos 15 anos. Orgulhosa, ela costuma dar conselhos sobre a profissão para a menina, que está no ar em "Malhação". "Eu passo a visão que tenho da nossa carreira. É preciso continuar com foco nos estudos e ter sempre um 'plano B' até a coisa dar certo e decolar", conta. (L.B.)

Instantâneas
Em 2001, Flávia Alessandra viveu sua primeira protagonista no horário das 21 horas, a Lívia de "Porto dos Milagres".

A atriz desbancou Adriana Esteves e Gabriela Duarte no concurso promovido pelo "Domingão do Faustão" que daria um papel na novela "Top Model" para a vencedora. Mas, no final, todas acabaram participando da trama.

Em 2006, Flávia posou para a edição de 31° aniversário da revista "Playboy".

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