De volta ao jardim zoológico
WILSON BUENO
De volta ao jardim zoológico
Os rememorantes
Também chamados de os duendes da noite, os rememorantes são animais dotados de uma inimaginável memória.
Vigiam o sono dos demais seres que habitam este nosso mundo insensato, graças a uma característica que faz deles, dos rememorantes, únicos sobre o planeta - não dormem, nunca dormiram, e porque sejam perenemente insones, podem penetrar nosso sono sem se deixarem contaminar por sua impossível matéria.
Os rememorantes possuem ainda outra qualidade essencial ao seu ofício - alcançam perscrutar, mesmo no sono mais embrutecido, os sonhos que ali morem e se movimentem com esta graça inquieta que costuma ser, dos sonhos, o seu maior triunfo.
Tudo imprimem à formidável memória, os rememorantes, e são eles que nos assopram ao ouvido excertos de histórias contadas por sonhos esquecidos ou mesmo o sanguinolento entrecho de um pesadelo para sempre soterrado pelo que havia nele de horrível e escasso abraço.
Nada temem da natureza dos sonhos, e nem poderia ser de outra forma, pois, detalhe supremo, os rememorantes se alimentam deles e só nos dão a ver, sobras sonhadas, lapsos, fragmentos, fluidos recortes e vagas esquinas de um sonho que, sabemos, com rigorosa certeza, ter sido bem mais do que o inútil sem nexo, por exemplo, de um olho boiando na água ou o simulacro de asas com que ainda uma vez tentamos e não conseguimos voar.
E porque se alimentem de nossos sonhos, vão por aí, ruminando-os o tempo inteiro, justamente naquelas manhãs em que, ingênuos, nos deixamos enganar, pensando que há muitas noites nada sonhamos.
É com eles que os rememorantes se refestelam, gordas jibóias de nossa talvez mais sublime quimera.
Os radiuns
São assim como curtas espirais, baixo a característica suprema de sustentarem-se ao ar das límpidas manhãs, pura paina, pêlos. Os radiuns são bichos tão misteriosos que dificilmente alguém, dentre eles, se deixa fotografar, auto-anulando-se nos seus menos de três centímetros de comprimento por milésimos de espessura, fios argênteos.
Certos zoólatras dão que os radiuns se parecem muito com as microespirais da constelação de Andrômeda - elétricos, rabichos encaracolados de impávida luz néon movendo-se aos milhares, aos feixes, aí onde o ar os abrigue, aos radiuns, com uma doçura de lavada atmosfera e altas estrelas.
Temer dos radiuns a sanha primeva de levá-los para dentro de casa com o fim de guardar alguns deles no fundo do guarda-roupa; temer o terror de que a sincopados movimentos de telégrafo sem fio, desandem a emanar uma energia em todos os sentidos fatal.
Seguidas as instruções de uso, contudo, observar dos radiuns a eloquência gráfica com que podem, no mais quieto da noite, desenharem o teu nome ardendo no escuro do quarto feito um artefato cósmico, e engalanado.





