De volta ao horário nobre
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 23 de novembro de 1998
Daniel Castro Especial para a Folha2 
Depois de 10 anos, quando interpretou a destrambelhada Leonora Lamar, em Sassaricando, Irene Ravache está de volta à TV Globo. Ela será uma das protagonistas, ao lado de José Wilker e Glória Pires, da próxima novela das oito, ainda sem título, assinada por Aguinaldo Silva. A trama, inspirada em Rei Lear de Shakespeare, terá a participação dos diretores teatrais Ulisses Cruz e Moacir Góes na preparação dos atores.
Aos 54 anos, Irene será Eleonor, uma mulher rica, madura e bonita, que viverá ao lado de José Wilker um casamento de fachada, abalado pela aventura do marido com a personagem de Glória Pires. A trama urbana será dirigida por Daniel Filho, Ricardo Waddington e Ulisses Cruz, amigos da atriz que a convenceram a aceitar mais este desafio.
Nos últimos dez anos, Irene Ravache se dedicou ao teatro, produzindo e atuando em Uma Relação Tão Delicada, Eu me Lembro, e Inseparáveis, tendo ainda participado da peça Brasil S.A. Na TV, ajudou a erguer o núcleo de dramaturgia do SBT, vivendo a personagem Dona Lola de Éramos Seis, participando ainda em Razão de Viver e Sangue do Meu Sangue (como princesa Isabel).
Esta volta é proporcionada por vários motivos: tenho um produto chamado Irene Ravache e preciso mantê-lo em evidência. Ser produtora de teatro e atuar em peças que ficam muito tempo em cartaz me solicita muito. Mas sinto falta do reconhecimento das crianças, elas eram muito pequenas quando fiz meu último papel na Globo, e não gosto de ficar explicando que nunca parei de trabalhar neste período, diz a atriz.
Outro fator que pesou na decisão de Irene em retornar para a Globo foram as alterações nas novas produções da casa. A dramaturgia da Globo mudou e o ineditismo inicial de Torre de Babel é um marco na tevê brasileira, comparável com o sucesso de Beto Rockfeller. Admiradora da qualidade técnica de produções como Hilda Furacão, Irene sentiu que estava perdendo o melhor da festa. Na opinião da atriz, o novo folhetim da Globo é um retrato do Brasil urbano que eu conheço, contado por gente que admiro.
Seu último papel na Globo foi o de Leonora Lamar na novela Sassaricando de Silvio de Abreu, que deixou saudades. Era uma delícia formar um trio de peruas com Eva Wilma e Tônia Carrero, disputando a atenção de galãs como Alexandre Frota e Edson Celulari. Ela se lembra com saudades de cenas divertidas. Com roupa de oncinha e unhas pintadas de azul, Leonora dava um amasso em Adonis (Frota) na boléia de um caminhão. Para uma mulher de 40 anos, fazer uma loraburra é muito divertido, ainda mais rodeada de homens musculosos, então....
Há mais de 30 anos morando em São Paulo, fato que poderia dificultar sua volta para a Globo, Irene não vê problemas neste momento de sua vida. O sacrifício de encarar a jornada da ponte-aérea não é mais obstáculo. Afinal, no Rio está o meu filho mais velho Hiran (33), com a esposa e o meu neto de 4 anos e meio, Carlos Eduardo. O marido, o jornalista Edison Paes de Melo (ex-Folha do Paraná/Folha de Londrina) não possui horários rígidos e vai poder dar sempre um pulinho nas gravações. A ironia fica por conta da volta do filho caçula Juliano (25), no final de novembro, depois de viver dois anos em Londres, justamente quando vai morar mais no Rio que em São Paulo.
Irene Ravache, que desde o início de sua carreira sempre aceitou papéis com os quais se identifica, vê em Eleonor uma mulher madura e bonita, que é mãe, sim, mas não é só isso. Ela já interpretou vários personagens de mães no teatro e na tevê, como a Lola de Éramos Seis e Chalrote de Uma Relação Tão Delicada. Eleonor é uma mulher madura e forte, que já deve ser avó, mas segue outro modelo de mãe. Ela tem vida própria e, definitivamente, não é do tipo que faz doce para os filhos. É um pouco do meu último trabalho em teatro que foi Inseparáveis, onde atuei ao lado de Jussara Freire. Uma mulher de 50 que em nada lembrava essas mães-coragem, analisa Irene.
O enredo principal da nova novela se baseia na briga de poder dentro de uma família, que é recheada com o debate sobre a noção de valor que se dá no Brasil as pessoas que já ultrapassaram a barreira dos 50 anos. O autor Aguinaldo Silva, que depois de escrever sucessos como Tieta, Pedra Sobre Pedra e A Indomada, não revela mais detalhes, alegando que deseja mudar a rotina da mídia em noticiar tudo antecipadamente.
O elenco contará também com as presenças de Letícia Spiller, Vanessa Lóes e Luana Piovani, no papel de filhas que desejam roubar o poder do pai, mas esbarram em Eleonor, que vai querer continuar dona da situação, até aparecer em sua vida um jovem pintor interpretado por Rodrigo Santoro. A estréia está marcada para 18 de janeiro, mas devido ao mistério nenhum dos atores teve acesso à sinopse e o nome ainda está sem definição.


