ReproduçãoRuy Maurity: ‘‘Esse disco é a minha verdade mesmo. É o trabalho que gosto de fazer’’O fato: 14 anos sem lançar um disco próprio, se excluída a participação na trilha sonora de ‘‘Ana Raio e Zé Trovão’’, novela exibida pela Rede Manchete, em 92. A explicação: ‘‘Faltou interesse das gravadoras que visam apenas ao sucesso imediato. E daí o tempo foi passando e eu me dei conta de que era preciso continuar investindo no que acredito para não ficar perdido’’. Quem diz é o cantor e compositor Ruy Maurity. Agora, a notícia: ele está lançando seu 10º disco gravado num pequeno selo pertencente ao músico Antonio Adolfo e distribuído pela Kuarup.
Treze faixas. Algumas regravações como ‘‘Serafim e Seus Filhos’’ (registrada recentemente por Zezé di Camargo e Luciano) e ‘‘Pelo Sinal’’ (ambas dele com Zé Jorge), e também músicas inéditas como a bela ‘‘Cintilante’’ (dele com Mário Paschoal), ‘‘Tempos de Menino’’ (só dele) e a singela e poética ‘‘Formosura’’ (com Zé Jorge), entre outras.
Todas, entretanto, trazem forte sotaque rural que Ruy Maurity há anos vem tomando como mote. ‘‘Esse disco é a minha verdade mesmo. É o trabalho que gosto de fazer. Apesar de já ter feito sucesso com outro tipo de música, cheguei à conclusão de que o meu caminho é mesmo o regionalismo’’- explica ele.
Arquivo Folha
Se o caminho decidido por ele é esse, então pode-se dizer que Ruy Maurity é no mínimo corajoso em lançar um trabalho da envergadura de ‘‘De Coração’’ numa época em as rádios e alguns fulanos tentam, mentirosamente, passar a idéia de que o brasileiro está apreciando pseudo músicas sertanejas e/ou regionais. ‘‘Eu não considero essas duplas de hoje como caipiras. São pop, popular, feitas para vender imediatamente. Pelo menos é que demonstram em seus discos. Mas o fato de o Zezé di Camargo e Luciano terem regravado ‘Serafim e seus Filhos’ demonstra uma certa preocupação com a qualidade do repertório’’- analisa.
Em ‘‘De Coração’’ Ruy Maurity ainda aposta na visão romântica das coisas e sentimentos interioranos o que, nessa altura do campeonato da evolução musical, pode soar um tanto quanto defasada. Ele ainda se utiliza de clichês melódicos e também fala de coisas que há anos e anos e anos compositores do mundo sertanejo ou caipira falam - a morena que espera, a viola sempre pronta para uma toada, a volta ao local de origem, boiadeiro, preces, cantador, violeiro e por aí vai.
Mas tudo é colocado de maneira tão singela, mas tão singela que é impossível não notar que ‘‘De Coração’’ foi, sobretudo, concebido sob o signo da sinceridade. Na verdade, Maurity mais uma vez reafirma suas influências musicais. Ou seja, ele deixa explicitado em qual fonte busca água para beber mas não se esquece de imprimir um quê de homem urbano que também é.
É bom frisar uma coisa: a visão regionalista de Maurity, mesmo que um tanto quanto simplória (porém não menos nobre) nessa ou naquela faixa, não é nada míope. Ao contrário, tem alcance suficiente para que, no todo, ‘‘De Coração’’ se apresente como um produto forte. Vigoroso. Valoroso.
‘‘De Coração’’ sai com uma tiragem inicial de 3 mil cópias. Outras poderão ser reproduzidas dependendo, claro, da boa aceitação do produto no mercado. Para isso, Ruy Maurity está começando novamente a colocar a cara e a voz na mídia para dizer que mesmo afastado do estúdio não caiu no ostracismo musical. O retorno está sendo lento, ele reconhece. ‘‘É difícil porque não tenho uma mídia forte me ajudando. Então, tenho que ir pelas beiradas mesmo porque se tiver uma expectativa de fazer sucesso imediato com esse disco eu posso me frustrar’’- analisa ele.
Um dos primeiros passos para que o disco decole foi enviá-lo a Mariozinho Rocha, o mandachuva
das trilhas sonoras das novelas da Rede Globo. Aliás, as novelas sempre foram um veículo extraordinário para que Ruy Maurity popularizasse seus trabalhos - lembram-se, por exemplo, de ‘‘Pelo Sinal’’ (incluída na trilha sonora de ‘‘Cabocla’’) ou mesmo o tema de abertura de ‘‘Dona Xepa’’? Pois bem, a música e voz eram dele.
O novo trabalho vem ancorado num dos maiores sucessos do compositor - ‘‘Serafim e Seus Filhos’’, já um clássico da MPB. É a primeira faixa do CD. ‘‘Eu quis regravar porque trata-se de uma música muito importante para mim. E também aproveitei como gancho, e talvez aí esteja o que se pode chamar de lance comercial, o fato de o Zezé di Camargo e Luciano terem gravado recentemente’’- confessa.
Ruy chegou a conhecer de perto o que é ser um bom vendedor de disco. Isso aconteceu, por exemplo, em 76 quando lançou ‘‘Nem Ouro Nem Prata’’, um trabalho que trazia pontos de umbanda, como a faixa-título (‘‘Eu vi chover, eu vi relampear/mas mesmo assim o céu estava azul/ tambor e pemba/ folha de Jurema/ Oxossi reina de norte a sul). Vendeu 150 mil cópias e pelo menos 300 mil compactos.
Em suma, a religiosidade afro foi bem acolhida pelo Brasil, o país de maior população católica do mundo. ‘‘Eu frequentei terreiros, mas a minha religião é a natureza, a força que todos temos dentro de nós. Quando gravei esse disco não foi uma coisa comercial, foi coisa de sentimento mesmo’’- afirma.
Aos 48 anos e com quase 30 anos de carreira, Ruy Maurity de Paula Afonso tem cerca de 250 músicas compostas, das quais pelo menos 150 já gravadas por ele e por artistas de vários naipes da MPB como Taiguara, Agostinho dos Santos, Beth Carvalho, Erasmo Carlos, Sérgio Reis e Maysa.
Sim, a grande dama da dor-de- cotovelo, Maysa, gravou, em 68, ‘‘Estranho Mundo Feliz’’, que ele fez em homenagem ao seu pai que havia morrido. ‘‘Estávamos no Pub, um bar no Leblon (Rio de Janeiro) onde ela ouviu, chorou e disse que tinha que gravar e gravou’’- lembra. Há um bom tempo, com exceção de Zezé di Camargo e Luciano, nenhum cantor o procura para buscar novas composições. ‘‘Gostaria muito que a Marisa Monte gravasse uma música minha. Dos cantores, acho que o Ney Matogrosso cantaria ‘Serafim e Seus Filhos’ de uma maneira maravilhosa’’- acredita.

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