Sempre que o cinema hollywoodiano aparentemente ‘‘de série’’ desembarca num grande festival internacional a imprensa convidada torce o nariz, em razão do histórico divórcio entre as linhas de conduta artística de um e outro. Não foi diferente em Veneza-2001, onde ‘‘Dia de Treinamento’’ (veja a programação de cinema nesta página) teve sua prSmiere mundial. Fora de competição, teria sido fácil e cômodo descartá-lo, mas prevaleceu o voto de confiança na atual e eficiente curadoria da mostra, e ao final da sessão lotada todos correram para a coletiva com o diretor afro-americano Antoine Fuqua e os atores Denzel Washington e Ethan Hawke. Principais motivos: um brilhante duelo de interpretações e a façanha de recuperar, com inteligência, os postulados do melhor cinema policial dos anos 70, acenando e reverenciando títulos como ‘‘Serpico’’, ‘‘Um Dia de Cão’’ e ‘‘Operação França’’.
O argumento segue cronologicamente o ‘‘dia de treinamento’’, ou ‘‘training day’’ do título original. Na verdade, menos de 24 horas. Logo às cinco da manhã toca o despertador para o policial calouro Jake Hoyt (Etha Hawke), postulando um lugar na Divisão de Narcóticos da polícia de Los Angeles. No café da manhã, começa de fato sua experiência através do primeiro contato com seu instrutor e parceiro, o condecorado Alonzo Harris (Denzel Washington), arrogante veterano com anos de rua. Personalidade ímpar, a deste homem imprevisível. Agressivo e intimidador, irônico e engraçado. Líder de uma equipe que combate a droga apelando para qualquer recurso, inclusive aqueles que batem de frente com o regulamento e com a legalidade. Espécie de filósofo urbano com doutorado nas mazelas observadas - e partilhadas - ao longo de 13 anos, Alonzo é um mestre na rotina de mandar e desmandar, no manejo com os traficantes, na arte de ‘‘transacionar’’ aqui e ali. Agindo assim, ele vem dominando um universo onde convivem traficantes menores ou graúdos, assassinos, informantes, policiais corruptos. ‘‘Um bom policial da Narcóticos deve ter a droga no sangue’’, ou ‘‘neste negócio é preciso se sujar um pouco para que te respeitem’’, diz ele a Hoyt, obrigando o debutante a experimentar a maconha apreendida.
Para o jovem ainda idealista e inexperiente, por ora é possível ‘‘salvar o mundo’’, mas definitivamente não como lhe sugere o cínico treinador. Durante este dia de cães, a dupla submerge no mais baixo submundo dominado por trapaças, traições e armadilhas, onde qualquer passo em falso (e nesta selva qual passo não é?) pode resultar em muitos buracos de balas, cortesia de quadrilhas de hispanos, russos ou negros. E talvez até mesmo de alguma arma policial. Pouco a pouco, Alonzo vai revelando seus truques, surpreendendo o parceiro e o espectador. Hoyt está confuso com a ambiguidade de Alonzo, e se divide entre a fascinação e a repulsa. As lições dos livros são a todo momento atropeladas, os métodos do outro não são aqueles considerados certos. Mas para o debutante há algo de proveitoso e real naquela conduta, e ele o segue. E o público idem, em grande parte fascinado pela magnética performance de Denzel Washington, que extrai o que se vê e o que vai oculto neste sólido personagem a um só tempo perverso, psicopata e sedutor. Seu segundo Oscar poderia estar mais próximo, não fosse a tendência para que neste ano se recompense o bom mocismo nas telas. Efeito WTC...
‘‘Training Day’’ poderia ter sido somente uma discreta aproximação dos excessos cometidos por um esquadrão anti-drogas de Los Angeles, durante os anos 90. Mas o filme, vagamente inspirado nas operações abusivas da tristemente célebre unidade ‘‘Crash’’, liderada pelo famigerado agente Rafael Pérez, acabou resultando em filme de nível acima de média. O roteiro sóbrio trabalha em cima de formulações tradicionais - as diferenças entre duas gerações e duas propostas éticas, e o jogo de gato e rato - e se sustenta em estrutura narrativa que lembra a do western clássico. Outro ponto a favor é o enfoque com força quase documental obtido em algumas sequências. A ressaltar também a habilidade de Fuqua em conseguir reciclar situações já conhecidas, permitindo que seus personagens respirem, se desenvolvam e até se contradigam. A química entre Washington e Hawke é bastante poderosa e acaba sustentando ‘‘Dia de Treinamento’’ mesmo na duvidosa reta final, quando o assunto perde interesse por conta de perseguições, coincidências e tiroteios.

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