A era glam ecoa. Com a badalação em torno do filme Velvet Goldmine, em cartaz na Europa e nos Estados Unidos, a tendência voltou às páginas da imprensa pop mundial.
Se é pouco para rotular a onda de revival, é suficiente para garantir assunto neste final de ano, enquanto se aguarda a exibição comercial do filme no Brasil ao som da trilha que acaba de chegar às importadoras.
Velvet Goldmine, de Todd Haynes, flagra a cena pop do começo dos anos 70. É um retrato da época em que o rock se encharcou de plumas, purpurina e paetês e aplacou temporariamente o ranço machista que sempre modelou o gênero.
ReproduçãoThe New York DollsO filme foi exibido há pouco para platéias seletas na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e na MostraRio. No festival de Cannes, realizado em maio, faturou o prêmio de melhor ‘‘contribuição artística’’ da competição. Não virou candidato ao Oscar, mas se antecipou como a aposta ‘‘cult’’ da temporada.
Velvet Goldmine conta a história do astro pop andrógino Brian Slade, criado sob inspiração de David Bowie, o principal protagonista da corrente. Mostra suas primeiras incursões musicais, a ascensão e sua posterior queda no auge da fama. O ator Jonathan Rhys Meyers faz o papel principal, secundado por Ewan McGregor (astro de ‘‘Trainspotting’’), que interpreta outro artista do gênero.
ReproduçãoCena de ‘‘The Velvet Goldmine’’Bowie rejeitou o filme, recriminou a caracterização biográfica do personagem e exigiu a exclusão de suas músicas da trilha sonora. Curiosamente, não implicou com o título do filme, emprestado de uma de suas canções. Mas Bowie pode ser ouvido sim, na trilha, ainda que durante alguns segundos fazendo vocais de fundo na balada ‘‘Satellite of Love’’, de Lou Reed.
Lou foi figura secundária no glam (também chamado de glitter). Entrou de contrabando na onda, assim como Iggy Pop, ambos puxados pela mão de Bowie que os tirou do ostracismo ao produzir seus álbuns no período. Iggy se faz presente na trilha com a ruidosa ‘‘T.V.Eye’’, só que cantada por Ewan McGregor em companhia da banda ‘‘de brincadeira’’ Wylde Rattz.
‘‘De brincadeira’’, porque foi montada exclusivamente para aparecer em pontinhas na tela e gravar a trilha. Nomes como Thurston Moore e Steve Shelley, ambos do Sonic Youth, estão ali devidamente disfarçados na formação. A banda The Venus in Furs, que toca quatro faixas (três delas do Roxy Music), também é improvisada. Traz Thom Yorke, do Radiohead, nos vocais e o ex-Suede Bernard Butler na guitarra.
A diversão prossegue com Jonathan Rhys Meyers tentando se passar por cantor em duas faixas. Ao todo, o disco traz altos e baixos. Soa retrô de propósito, perseguindo a releitura fiel da estética glam, com seus vocais afetados e guitarras hard. Assim, a banda britânica Placebo passa na prova, reproduzindo a contento ‘‘20th Century Boy’’, hit de Marc Bolan & T.Rex, rival de Bowie na liderança britânica da vertente.
É convincente também a versão do Teenage Fanclub para ‘‘Personality Crisis’’, dos The New York Dolls, expoentes norte-americanos do estilo. Até as músicas inéditas de bandas atuais como Pulp, Grant Lee Buffalo e Shudder to Think tentam recriar o timbre, os arranjos e as melodias da época.
Mas o filme e sua trilha não estão sozinhos na recuperação do glam. Marilyn Manson também rendeu-se ao estilo em seu último álbum Mechanical Animals.

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