Arquivo FolhaSelma Egray, como a Consuelo da novela ‘‘Ninho da Serpente’’, exibida pela Bandeirantes, em 82‘‘Na novela,
o ator não tem uma
relação direta
com o autor’’Nos tempos do chamado Cinema Novo, ela era uma das atrizes mais requisitadas, principalmente por Walter Hugo Khoury. Selma Egrey fez mais de 40 filmes, entre os quais ‘‘Anjo da Noite’’ (Khoury), ‘‘Aleluia Gretchen’’ (Sílvio Back) e ‘‘Ato de Violência’’ (Eduardo Escorel). Na tevê, fez as novelas ‘‘O Ninho da Serpente’’, na Bandeirantes, e ‘‘Carmen’’, na Manchete, e a minissérie ‘‘A, E, I, O Urca’’, na Globo, entre outros trabalhos. Agora, ela está de volta - por enquanto, ao teatro, onde também fez papéis marcantes e do qual estava afastada desde 1991. Durante todo esse tempo, Selma Egrey, dedicou-se ao trabalho de terapeuta em reeducação corporal. Aceitou convite do diretor Antônio Abujamra, para dar vida ao personagem Teraneno em ‘‘Fedra’’, de Racine.
Todo o trabalho de reeducação corporal desenvolvido nestes seis anos ajudou a atriz a enriquecer a composição do personagem. Segundo o diretor, Selma conseguiu levar uma coerência a Teraneno, da fala à linguagem corporal.
Selma Egrey começou no teatro em 1970, com a peça ‘‘Antígone’’. Ao mesmo tempo, cursava a EAD, a Escola de Arte Dramática da USP. Estreou no cinema em ‘‘Cordélia Brasil’’, de Rodolfo Nani. Em 73, conheceu o cineasta Walter Hugo Khoury e fez o primeiro de uma série de filmes que realizaria com ele - ‘‘O Anjo da Noite’’. Nesta entrevista, ela conta por que ficou desiludida com a carreira de atriz e fala do trabalho que vem desenvolvendo desde que largou os palcos.
Você era conhecida como uma das musas do cinema novo brasileiro, e mais especialmente como ‘‘a musa do Khoury’’. Como é ter um rótulo como esse?
Selma Egrey - É uma honra, até porque o Khoury é um dos poucos profissionais que fazem boa direção de ator em cinema. Aliás, aprendi cinema com ele. Mas o rótulo ficou para aquela época. Agora estou em outra fase.
Quais os personagens de sua carreira que você destaca?
Selma Egrey - Os preferidos são sempre personagens do teatro. A Joana D‘Arc de Bretch, que eu fiz na peça ‘‘Santa Joana dos Matadouros’’, com direção de Fernando Peixoto; minha personagem em ‘‘Grande e Pequeno’’, de Botho Straus e direção de Celso Nunes; o atual, o Teraneno de ‘‘Fedra’’ (de Racine e direção de Antônio Abujamra). No cinema, gostei de participar de ‘‘Anjo da Noite’’, ‘‘Aleluia Gretchen’’, de Sylvio Back, e ‘‘Ato de Violência’’, de Eduardo Escorel. Na TV já é mais difícil, não sou muito chegada, mas destaco as novelas ‘‘Ninho da Serpente’’ (Bandeirantes), ‘‘Carmem’’ (Manchete) e a minissérie ‘‘A, E, I, O Urca’’(Globo).
Com uma carreira tão produtiva, por que parou de atuar?
Selma Egrey - Eu estava descontente. Tinha muita coisa para dizer e mostrar com o corpo e a voz e os personagens e textos já vinham definidos pelo diretor. Não havia um trabalho de pesquisa.
Selma Egrey - Durante seu afastamento, você não sentiu falta do palco, da fama?
Selma Egrey - Não. Quando voltei a pisar no palco, pensei: ‘Como é bom...’. Mas não tinha sentido falta. Senti falta do processo criativo, que nos faz mergulhar no universo do personagem, pesquisar em diferentes obras. Enriquece muito. O processo criativo é uma fase de muita excitação, de muita experimentação de sentimentos, sensações. A fama não. Sempre fugi disso. O ator deve ser um mensageiro, estar junto de seu público. Se ele é endeusado, fica fora da realidade e aí é difícil atingir as pessoas, cumprir sua missão. Para mim, inclusive, o teatro deveria ser feito na rua (como Selma fez com ‘‘Penélope’’, em 96), para atingir muitas pessoas e de camadas diferentes.
Fale um pouco de seu personagem em ‘‘Fedra’’.
Selma Egrey - Meu personagem é o Teraneno, que é o mensageiro da morte de Hipólito. E é um personagem muito interessante, geralmente desenvolvido em fim de carreira, ou seja, por profissionais experientes. Quando Teraneno surge, a emoção aflora no espetáculo. Com ele, a cada noite eu revejo minhas experiências, minhas perdas, minhas dores e a percepção de que, apesar delas, temos de continuar.
Como você se situa diante dos três veículos, teatro, cinema e TV?
Selma Egrey - O teatro é a essência do meu trabalho. É a minha paixão. Tenho também uma paixão pelo cinema. Mas ele é a relação do ator com a câmera e, quando bem dirigido, o trabalho tem sutilezas, pois revela o interior do ator. Já com a tevê, nunca me dei bem. Mas eu fazia, pois é necessário para o ator, a televisão torna nosso trabalho conhecido.
Quando você fala de tevê, está falando de novela, não é?
Selma Egrey - É. Na novela, o ator não tem uma relação direta com o autor. Além disso, quando recebemos a sinopse é uma coisa. Depois muda tudo, de acordo com os anúncios comerciais. Com as minisséries não. É ótimo fazer. Lembram cinema.
Neste tempo em que se afastou da carreira artística, você andou se dedicando a um trabalho corporal. Conte com mais detalhes.
Selma Egrey - Desde o início de minha carreira, o trabalho corporal sempre caminhou paralelamente ao meu trabalho como atriz. Sempre tive a preocupação de ser coerente, acho que o personagem deve ser levado também pelo corpo, e não só pela fala. Assim, passei por um trabalho de consciência corporal com o ator e bailarino Ivaldo Bertazzo. Em 1990, eu me filiei ao Centro Brasileiro de Cadeias Musculares, representado no Brasil pelo Ivaldo, e que é baseado na escola belga de fisioterapia e na escola francesa de ordenação do corpo. É um trabalho de reeducação do movimento, através da consciência.
Explique um pouco melhor essa questão de tipologia de base.
Selma Egrey - Nós sempre reagimos muscularmente de acordo com uma base que herdamos. Assim, por exemplo, pelas marcas do crânio, descobrimos que uma mulher nasceu com uma tendência maternal. Mas, por necessidade, acabou se tornando uma executiva totalmente voltada para o trabalho. Vamos trabalhar para que ela adquira a consciência de um terreno que deveria pesquisar. No caso, sua tendência maternal.
E agora, quais seus projetos como atriz?
Selma Egrey - Não tenho. Do mesmo jeito que aconteceu este trabalho, podem surgir outros. Mas nada planejado. Só tem que valer a pena.
Este trabalho com o corpo te levou a atuar profissionalmente como atriz?
Selma Egrey - Sim. É um trabalho de consciência corporal, em que uso com meus clientes ferramentas como exercícios, pesquisa, toques, massagens, sempre tendo por base o trabalho do Centro de Cadeias Musculares.
Você está com 48 anos. Alguma crise em vista?
Selma Egrey - Crise não, pois, por lidar com o corpo, tenho uma compreensão maior de que a mudança é necessária. Quando fiz 30 anos, senti que estava entrando numa fase mais madura, o fim daquela coisa jovem. Uma coisa legal. Mas agora, ao me aproximar dos 50, a barra pesou. Percebo que o fôlego é menor; a energia é menor; começam a surgir mudanças na textura da pele, ela perde o viço; surgem as olheiras; os seios mudam... estou à beira da menopausa... sei que estou numa fase muito importante, não tão dependente do físico, mas é duro.

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