Analisar as características da solitária Amélia é uma tarefa claramente prazerosa para Júlia Lemmertz A pacata atriz gaúcha deixa de lado a costumeira voz baixa e a postura impecável ao traçar o perfil psicológico de sua personagem em ''Araguaia'', novela das seis da Globo
A problemática da infeliz dona de casa, no entanto, não é o único motivo para a empolgação de Júlia De volta às novelas após quase três anos, ela comemora o retorno em uma produção que, para ela, os atrativos vão muito além de seu papel ''Penso no personagem, obviamente, mas também penso muito no todo: na novela, nos outros personagens, atores, quem escreve, e o que pode ser da trama É um pouco como no cinema, não adianta ter um papel maravilhoso em um filme ruim'', compara a atriz, que integra a trama a convite do diretor Marcos Schechtman, a quem considera ''um irmão'' e com quem trabalha junto desde ''Amazônia'', exibida pela extinta Manchete em 1991
Na trama assinada por Walther Negrão, Amélia é uma ex-modelo de origem humilde que mantém um casamento por interesse com o rico criador de gado Max, personagem de Lima Duarte Com ele, tem dois filhos: o arquiteto Fred, de Raphael Vianna, e a veterinária Manuela, de Milena Toscano Vivendo uma relação conturbada com o marido, ela começa a se envolver com o ex-genro Vitor, interpretado por Thiago Fragoso ''Eles se agarram como uma tábua de salvação um para o outro A Amélia é uma personagem contraditória, perdida na vida Mas todo mundo é um pouco assim'', analisa
Em ''Araguaia'', o grande dilema de sua personagem é manter um casamento por interesse com um homem 30 anos mais velho, ao mesmo tempo em que se envolve com o ex-genro, 20 anos mais novo Que tal fazer par romântico com gerações tão distintas?
Acho muito rico A Amélia é uma personagem cheia de dilemas e vazios Uma mulher boa, mas que se deu bem na vida após um casamento arranjado Os dilemas amorosos dela são um exercício interessante porque o Lima, por exemplo, é um ator muito exigente, então você tem de ficar atenta o tempo todo Ele valoriza o trabalho dele e, por consequência, o de quem está junto Já o Thiago é um jovem ator maduro, com quem converso muito para tentar construir uma relação real O melhor é que ''Araguaia'' é um novelão dos bons, com histórias de amores impossíveis e desencontros Estou gostando
O teatro e o cinema ocupam parte considerável de seu tempo como atriz São prioridades?
Não acho que o teatro está acima de tudo e a tevê vem depois Acho que me completo fazendo as duas coisas Sou uma atriz melhor de televisão quando estou fazendo teatro Para mim, funciona assim Quando faço teatro, sinto que venho gravar mais quente, aguçada Procuro fazer sempre os dois, mas não estou mais tão atirada quanto antigamente Sinto que dei uma cansada porque o trabalho duplo é muito desgastante Às vezes, gravo no Projac quatro ou cinco dias por semana e faço uma peça de quinta a domingo Quase não tenho tempo para mim
Mas você diria que vive seus personagens mais interessantes nos palcos?
Acho que sim No teatro, principalmente, você consegue ir mais fundo nas coisas Não faço um personagem que remeta a outro É tudo muito diferente Por isso, não me importo de eventualmente viver um papel um pouco mais normal em novelas Mas também fiz personagens na tevê que gostei muito, como a Dona Júlia de ''JK'', a Clara de ''Tudo Novo de Novo'' e a Genésia de ''Porto dos Milagres'' Talvez a minha dedicação à televisão não seja tão completa Como gosto de fazer teatro e cinema, nem sempre dá para conciliar com uma novela e, às vezes, fico um tempo longe
Você começou sua carreira na Band, passou pela Manchete e teve algumas idas e vindas na Globo O que essa mobilidade trouxe para a sua carreira?
Sempre achei legal ter essa independência, a possibilidade de estar em um lugar agora e em outro depois Em cada um fiz uma história, construí coisas com amigos e vivi personagens legais Foi um caminho bacana do qual me orgulho Acho que, de alguma forma, a Globo também aprendeu a lidar com essa minha coisa saindo e voltando Há um respeito entre nós e uma valorização por eu ser uma atriz que faz teatro, cinema Eles sabem que têm uma profissional que pode fazer vários produtos Já fiz comédia, drama e não sou só a mocinha ou a vilã Tenho um leque de possibilidades grande
Que lembranças carrega do tempo em que trabalhou em outras emissoras?
Presenciei a criação do núcleo de dramaturgia tanto da Bandeirantes quanto da Manchete Fiz vários trabalhos legais, mas um dos mais marcantes nem foi ao ar, que foi a minissérie ''O Marajá'', que contava a história do Collor e do ''impeachment'' (em 1993) Não foi exibida porque ele embargou na Justiça Gravamos os 40 capítulos, que sumiram e ninguém sabe onde foram parar Era uma sátira incrível Depois fizemos ''Guerra Sem Fim'', outra novela maravilhosa, para cobrir esse buraco
Foi em ''Guerra Sem Fim'' que você conheceu o Alexandre Borges, seu marido há 20 anos Que influências vocês têm na carreira um do outro?
Já trabalhamos bastante juntos Estamos sempre de olho um no outro Se precisar, passamos textos juntos, vemos cenas e trocamos ideia Mas também respeitamos muito o que cada um pensa naquele momento Eu digo que o Alê é meu primeiro público Se ele gostou, fico tranquila É uma pessoa bem exigente e cujo trabalho admiro muito Se ele gostou, sei que já tenho meio caminho andado O resto, se falarem mal, eu nem me importo

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