De sex symbol do rock a novo romântico
PUBLICAÇÃO
domingo, 23 de agosto de 1998
Mera Teixeira Especial para a Agência Estado 
Arquivo FolhaPaulo Ricardo: Não tenho
nenhum
preconceito
com popular
porque gosto
de estar
no meio
do povãoSou um aprendiz
e me sinto muito
estimulado
Sou brasileiro
e a MPB é
minha área, simO cantor e compositor Paulo Ricardo, que chegou a ser considerado sex symbol do rock nos anos 80, declara-se agora um novo romântico. Aos 35 anos, o ex-líder e vocalista do grupo RPM lança um álbum intitulado O Amor me Escolheu, que traz uma das faixas mais bem executadas no rádio atualmente, a balada Dois, tema da novela Corpo Dourado. O cantor dos sucessos Louras Geladas, Olhar 43 e A Cruz e a Espada quer mais é se aprofundar na MPB.
Neste disco, não é o Paulo Ricardo do RPM. Não é o roqueiro. É outro cara, garante. O CD abre com E Não Vou Mais Deixar Você Tão Só, conhecida na voz de Roberto Carlos, passa por composições de Vinícius de Moraes, Jorge Benjor, Fagner, Caetano Veloso, Djavan e até Love of My Life de Freddie Mercury, que em castelhano virou Cuando Te Vas e, em português, Felicidade, além de parcerias do cantor.
Depois de ser chamado de namoradinho do Brasil em Portugal e virar o queridinho nos países da América Latina, Paulo Ricardo lançará um CD em espanhol, em outubro. Para isso, está estudando o idioma. Antes de embarcar, dá continuidade à turnê brasileira que leva o mesmo nome do disco. Depois de cantar em Goiânia, ele inicia uma temporada pelo Norte e Nordeste.
No novo álbum, que já rendeu um disco de ouro, o cantor faz uma homenagem ao Rio de Janeiro com o padroeiro São Sebastião na capa, onde expressa também sua mudança de estilo. E não é só o rock que é coisa do passado na vida de Paulo Ricardo, mas a modelo e atriz Luciana Vendramini. Amando novamente, o cantor diz que a nova namorada (não revelada) não é da área artística e que é melhor assim. Nesta entrevista, ele conta por que o rock não faz mais parte de seu repertório.
Você tem avaliado esse disco como uma evolução, um sinal de maturidade. Por que só agora se sente assim?
Paulo Ricardo - Acho que, pelo meu histórico, fui pego pelo rock e pelos Beatles muito cedo. O próprio Roberto Carlos já trazia uma coisa bem internacional nos anos 60. Ele era nosso paralelo em relação aos Beatles e ao Elvis Presley. Levou muito tempo para que eu não só tivesse a oportunidade de trabalhar com as várias maneiras de se fazer rock até chegar ao esgotamento disso e começar a pesquisar sobre esse manancial maravilhoso e riquíssimo que é a MPB. Isso é uma coisa que acontece um pouco por causa do meu interesse gradual em relação ao rock, que não é mais o que foi nos 60 e 70. Já são várias outras reproduções de coisas que aconteceram melhor antigamente.
Como você vê o rock, hoje?
Paulo Ricardo - Hoje, a gente vê o rock vivendo mais do passado. Não há mais um grupo como um Pink Floyd, um Led Zeppelin, uma coisa que monopoliza o mundo. Hoje, existem tendências, e o que existe no mundo inteiro é uma valorização cada vez maior dos artistas locais. As pessoas estão meio de saco cheio dessa coisa Madonna e Michael Jackson. Os artistas locais têm vendido mais discos que esses grandes nomes. Minha mudança foi natural. Ao mesmo tempo que tive a oportunidade de fazer tudo que eu tinha no rock, chegou uma hora vi que não era mais isso. Isso não estava mais me satisfazendo e de qualquer maneira o rock estava indo por um caminho muito adolescente. Não me identifico com essa coisa como tatuagem no corpo inteiro e piercing no nariz. Aos poucos fui me distanciando dessa imagem violenta que não tem nada a ver comigo e ao mesmo tempo, me aproximando cada vez mais da poesia brasileira, da tradição romântica da MPB e da melodia. De certa forma como um círculo completo onde eu parto de Roberto.
Falar de amor, você acha que isto é o que as pessoas estão procurando ou é uma procura sua?
Paulo Ricardo - As duas coisas. Mas, ao mesmo tempo, esse disco nasceu de uma constatação de que eu rendo mais nas baladas. Como cantor e compositor, flui mais. Eu poderia estar aqui tecendo discursos inflamados sobre o governo e a corrupção, mas acho que não é onde eu posso fazer melhor. A garotada deve fazer isso melhor. Esse traço rebelde é uma coisa natural da idade. A gente tem que saber mudar e o rock às vezes funciona como uma espécie de prisão onde você tem que ficar eternamente jovem, sentindo as últimas tendências. Não me sinto ligado nessas coisas, nem enquadrado nesse perfil de rock debil mental MTV, de punheteiro e esse tipo de canção. Quando eu tinha cinco anos, ouvia Egberto Gismonti. Nunca fui idiota. Aos sete anos, eu ouvia Roberto Carlos. Não aceito essa humilhação nem essa função de xerox dos meninos. Acho que temos a MPB como a das mais maravilhosas e ricas do mundo da música e me sinto um cantor brasileiro como fruto de Roberto e Caetano. Claro que rock entra como uma atitude, como uma coisa universal em novidades tecnológicas, todo um aparato de recursos que você pode utilizar. Mas a música e a poesia servem para emocionar.
Você acha que é isso que a juventude hoje tem que fazer?
Paulo Ricardo - Não quero ditar regras nem dizer o que as pessoas estão precisando ouvir. Senti uma necessidade cada vez maior de me aproximar da música popular brasileira, de conhecer, de pesquisar, de ouvir Nelson Gonçalves, Lupicínio Rodrigues, Ataulfo, Francisco Alves e saber como vim parar aqui, e pegar essa linha evolutiva e chegar à conclusão de que o que faço melhor são as baladas e existe uma maneira minha de fazer balada com meu histórico, com minha formação de Beatles e de pop rock. Quero trazer essa sonoridade contemporânea, esse sol que lá fora os caras sonham, enquanto a tradição da música popular brasileira é mais percussiva. Violão é uma coisa acústica sim, mas eu gosto do arsenal de áudio que o pop rock e a dance music oferecem. Quero usar essas armas a serviço da canção popular brasileira que é essencialmente romântica como a função latina de um modo geral. Eu quis depois de muitos discos comuns de rock, fazer esse disco de amor, um pop romântico. Eu quis fazer uma coisa coerente, uma coisa homogênea.
Como rebate a crítica de que você está compondo cada vez menos e entrando na MPB que não era sua área?
Paulo Ricardo - Pô, eu sou brasileiro e a MPB é minha área, sim. Isso é de direito. É a minha e é a sua. O que não pertence a nós brasileiros é o rock-and-roll. A gente pode fingir que é moderninho, que leu a última revista e ouviu o último disco, mas isso não nos pertence - é uma imitação barata. O que existe é a necessidade de você amadurecer para vivenciar a música brasileira e mergulhar numa profundidade emocional de um Cartola. A música brasileira é muito rica. Sou um aprendiz e me sinto muito estimulado. De rock eu já sei tudo. Mas a minha realidade é a brasileira que sofre, que é apaixonada e que é sensual.
E o que você acha da onda do Tchan?
Paulo Ricardo - Vejo o É o Tchan como uma manifestação legítima da alma do povo brasileiro. É esse povo que gosta de um churrasquinho, uma cervejinha e a mulata rebolando. Faz parte, e eu não tenho nenhum preconceito. No rock é usado muito artifício de estilo. Então, por trás de um sonzinho você tem uma canção fraca. A música brasileira é implacável. A canção tem que ser boa. Então não me acho em condições de compor 12 grandes canções e não vejo por que essa fome toda. Meu negócio é cantar música boa e não despejar uma quantidade de composições. Enquanto estou aprendendo a cantar a música dos outros, aos poucos vou colocando as minhas. Neste CD eu gravei Caetano, Djavan, mas a música que pegou é minha. Fico contente, mas não acho isso uma necessidade e não ficaria triste se a música que tivesse pegado fosse de outro. De qualquer forma, seria minha interpretação. É como dizer música do Elvis. Não existe música dele porque ele nunca compôs. Assim como diz do João Gilberto ou de Roberto Carlos. Passei minha carreira compondo todos meus discos. O que produzi com meus parceiros está maravilhoso. Não tenho essa necessidade de me afirmar, de encher um disco com minhas composições.
Isso quer dizer que você está abrindo um espaço para novos compositores, ou prefere os já consagrados?
Paulo Ricardo - Não. Eu ouço as coisas das pessoas novas. É que não é fácil ter uma música que reúna tudo que você gosta. Não tive a oportunidade de pegar uma fita de uma pessoa nova e ser completa. Tenho facilidade para fazer a letra. Às vezes recebo músicas pra colocar a letra. Foi o caso de Dois. A melodia é de Michaell Sullivan. Depois dessa música fizemos mais um monte e no novo disco da Fafá de Belém virá Mais e Mais, de nossa parceria. É uma balada maravilhosa, uma das minhas favoritas.
Na capa desse disco, você se fantasia de São Sebastião. É seu santo de devoção?
Paulo Ricardo - São várias leituras. Eu queria fugir daquela capa tradicional. Nela, existe a leitura do sofrimento amoroso, da flecha do cupido, a de São Sebastião e até uma leitura gay. Mas não é meu santo de devoção. Minha santa é Nossa Senhora de Aparecida. Acho que S. Sebastião é uma imagem muito forte. Quando criança você vê aquela cara sofrida assim, e pergunta: o que ele fez? Depois dessa capa feita, eu estava conversando com meu guru e ele me disse-me: Cara, você não percebe que isso é quase uma radiografia do seu estado de espírito, emocional na época? Eu estava me sentindo exatamente assim: amarrado, tolhido, flechado, porque eu não cabia mais no nicho, não me sentia mais adequado ali e estava também terminando um casamento de anos e cheio de conflitos. A capa é quase uma terapia inconsciente. Na verdade eu queria fazer uma homenagem à cultura sacra. Essa capa me incomoda... Esse cara amarrado aí é o cara da música Dois. Ele queria estar com outra pessoa, fazendo outra coisa, mas está preso. Está flechado, está sofrendo. Esse cara está mau (risos).
O que levou você a abrir o disco com a canção do Antônio Marcos, conhecida na voz de Roberto Carlos?
Paulo Ricardo - Para dizer: olha só o que gosto e o que quero fazer: Robertão, clássico, inimitável. No disco há vários compositores sofisticados da MPB, mas começa com Antônio Marcos. Não tenho nenhum preconceito com popular porque gosto de estar no meio do povão. Gosto de andar de ônibus, de botequim, de abraçar e beijar as fãs. E Antônio Marcos é aquele cara da moto, daqueles filmes que vi quando eu era moleque, e essa música é uma das mais fortes da fase do Roberto, no final dos anos 60, que sou apaixonado. Depois, achem o que quiserem. Não estou procurando disfarçar. Nunca fui tão sincero no meu trabalho. Nesse disco não é o Paulo Ricardo do RPM. Não é o roqueiro. É um outro cara. É o disco de uma pessoa adulta. Não tem nada de moleque de pop rock, de gracinha, de roupinha clubber.


