De Santo André a New Orleans
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 07 de setembro de 2000
Ranulfo Pedreiro De Londrina 
A confluência entre rock e gêneros regionais já foi visitada por vários nomes da música brasileira, e volta a ganhar fôlego com Kléber Albuquerque. O compositor paulista está em evidência com a classificação da embolada-rock Xi de Pirituba a Santo André (parceria com Rafael Altério) para a final do Festival da Globo de Música Brasileira. Ao mesmo tempo, Kléber Albuquerque chega ao segundo CD, Para a Inveja dos Tristes, lançado pela Dabliú.
Com base no sampler, Kléber Albuquerque traça uma costura entre guitarra, teclados, baixo, violão e bateria. Há espaços para ruídos diversos, assobios, percussão e gaita. O disco abre com o reggae A Chave Certa, um potencial hit de FMs. O trabalho começa a ficar mais contundente em Espera, que traz um contato sutil entre Nordeste e blues-rock.
Em seguida, há um salto para Isopor (parceria com Élio Camalle), interpretada em violão e voz, com participação especial de Fábio Jr. É uma faixa cantarolável e descontraída, fazendo uma espécie de ponte para Lã de Vidro, mistureba com jeito de blues que dribla definições, aproximando novamente o tempero nordestino.
Carnaval é um frevo eletrônico interessante, mas que às vezes soa quadrado pelo excesso de loops, programação e guitarras distorcidas. O despojamento talvez valorizasse mais a composição. Mas o objetivo que nem sempre é atingido busca justamente quebrar a linearidade e escapar do óbvio.
A melancólica Uns 10 Amantes ganha tempero retrô com a presença de um teclado moog discreto e uma guitarra chorosa. A programação eletrônica também aparece na setentista Casinha Branca (Gilson/Joran), flashback de quem era garoto na época em que a música fez sucesso. O CD encerra com A Ópera do Rinoceronte (parceria com Madan), faixa desesperançosa.
O disco de Kléber Albuquerque traz erros e acertos. Em algumas vezes o excesso de eletrônica age contra e prejudica o resultado, em outros, colabora para o crescimento de faixas que seriam regulares. A interpretação anda em conjunto com os arranjos em busca de uma linguagem própria. Para a Inveja dos Tristes traz a instabilidade de uma carreira em formação, mas aponta caminhos interessantes e tem bons momentos, tanto como disco pop quanto de MPB.


