De crise de identidade musical a moça, pelo jeito, não sofre. Muito menos do comodismo tão comum em cantores que têm compromissos exclusivos com dials de rádios. Em ‘‘Intimidade’’, seu terceiro disco, Zélia Duncan está mais para formar do que informar opiniões musicais dentro do universo pop brasileiro, um tanto quanto viciado em frouxas frases de efeito e tum-tum-tum eletrônico. Trata-se de um trabalho claro, direto e objetivo. Mas não seco ou retilíneo. É conceitual sem, no entanto, dar margens a maiores elucubrações.
O lado doloroso do amor está no disco de Zélia Duncan. Mas nada que lembre abujar lilás ou baldes de cuba libre. A cantora e compositora, que assina 11 das 12 faixas, a maioria com Crystiaan Oyens, preferiu expor melancolias sentimentais com certa dose de poesia. Diz ela em ‘‘Me Gusta’’: ‘‘Estou me acostumando comigo/revendo a casa, os vizinho/e os vazamentos/E isso não me assusta mais’’.
Há outras faixas mais ou menos cerebrais. ‘‘Assim que eu gosto’’ é uma das que mais prendem a atenção, pela forma com que a letra foi costurada com a mais linha fina da ironia: (‘‘Pode me largar/que eu tenho pressa/ não me interessa/sua beca/ou seu perfume francês/meu corpo agora só fala português’’). Para revestir as letras, Zélia Duncan e trupe dão fartas goladas no folk, country-rock e blues. Mas nada tão radical assim.
O violão mais uma vez se sobressai no trabalho de Zélia. É ele quem dá toque especiais em canções belíssimas como ‘‘Minha F钒 (dela com Lucina) e ‘‘Vou Tirar Você do Dicionário’’ (Itamar Assumpção e Alice Ruiz) que tem participação especial de Lenine e faz citações a duas pérolas - ‘‘Baratotal’’ (Gilberto Gil) e ‘‘SOS’’ (de Maurício Pacheco, do grupo ‘‘Os Mulheres que Dizem Sim’’).
Como intérprete, Zélia é quase única. Sua voz de timbre grave está à vontade para cantar faixas interessantes como ‘‘Bom pra Voc꒒ (Cristiaan Oyens-Zélia Duncan) e ‘‘Experimenta’’ (Fernando Vidal-Cristiaan Oyens-Zélia Duncan), que tem um leve solavanco dance. Mas é sem dúvida nenhuma em ‘‘Me Gusta’’ e ‘‘Assim que Eu Gosto’’ que ‘‘Intimidade’’ tem seus pontos mais vigorosos tanto em letra quanto em música e interpretação.
‘‘Intimidade’’ é um disco moderno com um quê de pretensão sonora. É, antes de mais nada, um trabalho em que Zélia Duncan confirma sua vocação pop. Um disco, aparentemente, sem nenhum grande apelo comercial apesar de ‘‘Enquanto Durmo’’ ter se destacado na novela ‘‘Salsa e Merengue’’. ‘‘Intimidade’’ é, sobretudo, um produto com alto teor de personalidade musical que pode - e deve - ser sorvido sem nenhuma advertência.
Nariz torcido Zélia Duncan está há um bocado de tempo nessa longa estrada da vida artística. Tem quase 15 anos de carreira. A tentativa de vir a à tona aconteceu em 91 com ‘‘Outra Luz’’, um disco chato de doer. Nem ela tem boas recordações desse trabalho. ‘‘Esse disco não era minha cara, estava muito longe de mim. Se tivesse estourado acho que eu iria pirar’’- diz ela. No disco, relançando recentemente em CD, Zélia assinava Cristina em vez de Duncan.
Em 94, a grande chance. O disco ‘‘Zélia Duncan’’ caiu nas graças do povo em função da música ‘‘Catedral’’ (versão de ‘‘Cathedral Song’’) ser incluída na novela ‘‘A Próxima Vítima’’. Vendeu 200 mil cópias e deixou clara a inclinação de Zélia para a MPB. Em ‘‘Intimidade’’ Zélia confirma-se como uma cantora pop. ‘‘Eu me preocupo em fazer músicas. Onde vão me encaixar eu deixo a critério das pessoas’’- diz ela.
Zélia é pop. Pelo menos está mais pop do que nunca. Ela até reconhece isso. ‘‘O grande trunfo do artista pop brasileiro é ter a MPB como base. Eu achei um lugar confortável e que não tem muita gente. Tem um frescor que eu não sei explicar ao certo, mas é essa a onda que peguei’’- filosofa, citando Marina, Cazuza, Renato Russo e Arnaldo Antunes como suas referências musicais.
Mas Zélia também se dá bem cantando na grande praia. No songbook de Dorival Caymmi deu bem conta do recado em ‘‘Sábado em Copacabana’’ e arrasou, posteriormente em ‘‘Quantas Lágrimas’’, no disco ‘‘Casa de Samba’’. Foram participações em projetos especiais de que ela tem boas recordações mas... ‘‘Tem gente da MPB que torce o nariz para mim. São pessoas que têm compromisso com o fracasso e se alguém dá certo, como eu, é porque abriu as pernas ou coisa assim’’- informa.‘‘Não sou e nem quero ser uma unanimidade. Estou mais preocupada em ir atrás do que tem afinidade comigo’’- completa. Se ela falou, está falado, ora essa.

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