De repente, um desafio
PUBLICAÇÃO
domingo, 05 de julho de 1998
Ranulfo Pedreiro 
DivulgaçãoTemas como foguetes espaciais, eleições, educação, saúde e língua portuguesa atiçaram a imaginação dos repentistasNa década de 60, alguns intelectuais encontraram uma forma de protestar contra a invasão de produtos culturais estrangeiros e a ascensão do regime militar no Brasil. A idéia era reunir estudantes e artistas para divulgar expressões populares de cultura, resgatando valores como a música de raiz - sempre temperando tudo com ideologia política e resistência à ditadura. Associada à União Nacional dos Estudantes (UNE), dessa proposta surgiram os CPCs - Centros Populares de Cultura, que atraíram músicos como Edu Lobo, Tom Zé, Capinam e Nara Leão, escritores como Ferreira Gullar e atores como Carlos Vereza.
Um dos principais idealizadores do projeto foi o dramaturgo Oduvaldo Vianna Filho, e as atividades dos CPCs se estenderam ao teatro, música e poesia. A atuação desses centros sofreu restrições depois do fatídico 68, mas a idéia do Centro Popular de Cultura continuou com o cineasta Denoy de Oliveira, que foi convidado pela União Metropolitana dos Estudantes Secundaristas de São Paulo para reestruturar o novo CPC. A idéia foi aprovada em assembléia em 1994.
DivulgaçãoOs finalistas bons de viola e craques de verso e improviso: Oliveira de Panelas, Ismael Pereira, Valdir Teles e Sebastião da SilvaE o novo CPC já mostra algum resultado. Associado à gravadora Eldorado, o Centro criou há três anos um selo que está divulgando artistas que, de uma forma ou outra, fogem a padrões comerciais.
No catálogo, constam discos como Tocador de Vida e de Viola, de Adauto Santos; Pote de Memória, de Luiz Carlos Bahia; Canudos, de Gereba; Uma Palavra Viva, de Maria Esther Palhares; Concertoria, de Ney Couteiro; Nicarágua Canta, de Luiz Enrique Megia Godoy; Música do Cinema Brasileiro I, com Marcus Vinícius; Nosso Choro, do grupo Nosso Choro, O Homem das Galochas, de Dyonísio Moreno; Katxerê, de Kátia Teixeira; Bambu, do Quarteto Bambu; Brasil, Acordeon, de Cézar do Acordeon; e O Desafio do Repente, que reúne a final do 1º Campeonato Brasileiro de Poetas Repentistas, gravado no dia 13 de julho de 1997.
O Campeonato foi realizado no Memorial da América Latina e rendeu um ótimo disco, que reúne quatro finalistas bons de viola e craques de verso e improviso: Oliveira de Panelas, Ismael Pereira, Valdir Teles e Sebastião da Silva.
A fórmula utilizada no campeonato também deu um toque especial ao CD. Ao invés de colocar os repentistas em dupla, cantando lado a lado - formato comum em outras competições -, a organização optou pelo chamado desafio ao pé da parede, onde os rivais se enfrentam. Na destreza dos versos e dos temas, os desafiantes tentam derrubar o adversário, induzindo-o ao erro.
A finalíssima, realizada após 19 etapas em que cem cantadores se enfrentaram em 80 pelejas, contou com a participação de Lourinaldo Vitorino, conhecido poeta-repentista que improvisou durante a apresentação dos candidatos e dos desafios.
A final trouxe várias modalidades de estrofes e cantorias. Entre elas a Sextilha, com seis versos de sete sílabas, com rimas marcadas no segundo, quarto e sexto verso. No Mote Setissílabo a coisa se complica ainda mais: são dez versos de sete sílabas, encerrando com dois versos de mote - que foi apresentado no momento da disputa pela comissão julgadora. Já o Mote Decassílabo tem dez versos de dez sílabas, terminando com o mote.
O Martelo Agalopado tem dez versos com dez sílabas. O primeiro rima com o quarto e o quinto, o terceiro com o segundo, o sexto com o sétimo e o décimo, e o oitavo com o nono. O Galope à Beira-Mar tem onze sílabas, e o Treze por Doze tem sete sílabas até o sexto verso, onze sílabas no sétimo e oitavo, e o nono com 13 sílabas.
Se o grau de dificuldade do concurso foi grande, os repentistas não decepcionaram, dissertando sobre foguetes espaciais, eleições, educação, saúde, língua portuguesa, enfim, os temas mais variados. A disputa realizada entre cem repentistas e a final com quatro improvisadores de qualidade mostram também que o repente ainda mantém forte tradição.
Os finalistas foram nomes de peso: Sebastião da Silva, por exemplo, é paraibano de Guabira e uma fera nos versos. Dos 152 concursos que disputou, venceu 79. Oliveira de Panelas, o primeiro colocado, começou aos 12 anos no sertão de Pernambuco, tem 12 discos gravados e seis livros lançados.
O terceiro colocado, Valdir Teles, também é pernambucano, e possui oito discos gravados. Ismael Pereira, que ficou em segundo, é cearense de Aurora e venceu o Festival de Brasília de 1996, ao lado de Raimundo Caetano.
O álbum O Desafio do Repente é duplo e traz disputas com temas determinados em quatro pelejas. A final ficou entre Ismael Pereira e Oliveira de Panelas, que foi o vencedor. No disco estão registradas todas as artimanhas de cada repentista. É um material que traz boas surpresas ao ouvinte, com tiradas inteligentes e rimas trabalhadas. O CD é destinado a um público específico e não traz características comerciais.
Os interessados em adquirir discos do catálogo do CPC podem entrar em contato com o selo pelo telefone (011) 287-4065 ou 251-3119. Os pedidos também podem ser feitos na Gravadora Eldorado, pelo telefone (011) 254-6800. O CPC também tem uma página na Internet, que pode ser acessada no endereço eletrônico www.umes.org.br.


