De plantão contra a Aids
PUBLICAÇÃO
domingo, 01 de dezembro de 1996
Nelson Sato 
Segunda-feira, 1 e meia da tarde. Uma turma de adolescentes aguarda a antropóloga Leila Jeolás no corredor do Centro de Saúde, em Londrina, para participar de uma Oficina de sexo-seguro.
Dois grupos conversam separados. Nem todos se conhecem ali, e nem sabem direito o que vai rolar nas três horas em que estarão fechados na sala. Ao fim do encontro, porém, todos saem descontraídos e falando pelos cotovelos.
- Eu achava que a gente poderia pegar Aids através de beijo na boca. Aprendi hoje que não é bem assim.
Quem fala é Tatiane F. Broca, 14 anos, uma das participantes da oficina. Sem meias-palavras, eles vão enumerando as dúvidas derrubadas em relação às formas de transmissão do vírus HIV, uso da camisinha e outros assuntos ligados à sexualidade raras vezes tratados dentro de casa com os familiares.
á- A professora pediu para desenhar o que vinha na nossa cabeça quando se falava de Aids, e todo mundo desenhou a morte. Acho que a maioria das pessoas pensa assim. Mas vimos que se a pessoa se cuidar, ela poderá viver tanto quanto qualquer uma que não tenha a doença.
O depoimento desta vez é de Patrícia Gazolla Mota, 15 anos, outra que saiu empolgada da sala. A Oficina foge do esquemão das palestras, em que um convidado fala e os outros apenas ouvem. A proposta é envolver a garotada através de jogos e uma série de atividades coletivas.
Rodrigo Serafin, 16 anos, é outro que gostou da experiência.
- É importante todo mundo se informar a respeito da Aids porque qualquer um pode estar contaminado pelo vírus. Ninguém sabe se uma pessoa tem, ou não tem, porque ela é uma doença que ninguém vê.
A Oficina faz parte do programa de prevenção de doenças sexualmente transmissíveis criado no mês passado pelo Centro de Referência de Atendimento ao Adolescente de Londrina (CRAAL), órgão ligado à 17ª Regional da Saúde do Estado que conta com o apoio do Departamento de Enfermagem da UEL e da CAAPSML.
Sexualidade Além da Oficina, o CRAAL desenvolve um vasto programa que inclui atendimento diário nas áreas médica, psicológica, serviço social e enfermagem. As consultas podem, inclusive, ser marcadas por telefone como uma forma de poupar garotos e garotas de eventuais filas caso apareçam por lá de bobeira.
Recentemente foi criado também o Plantão Aids para Adolescentes, que se instala às segunda-feiras (com exceção daquelas reservadas para a oficina) com exibição de vídeos, eslaides e bate-papos tira-dúvidas. A novidade entretanto é a Oficina, cuja abordagem têm muito a oferecer às escolas que queiram incorporar já a proposta do Ministério da Educação de introduzir temas como ética e sexo nos currículos escolares.
Para a coodernadora Leila Jeolás, os jovens são muito interessados tanto em se informar como em participar de experiências desse tipo.
- Discutimos a Aids dentro do tema mais amplo da sexualidade e a partir de suas próprias dúvidas. De nada adianta ficar só falando para o jovem usar camisinha numa fase da vida em que ele está se debatendo com tabus, pré-conceitos, pressões sócio-culturais e a descoberta do corpo.
O próximo encontro, avisa ela, está agendado para o dia 30 de dezembro. Quem se interessar é só pintar no Centro de Saúde, que fica a poucos metros do Calçadão de Londrina.


