De Piazzolla às artes plásticas
Em relação ao patrimônio histórico do cinema nacional, também é uma perda imensurável. Acho que, no Brasil, existem apenas quatro ou cinco salas do porte do Ouro Verde, e poucas com esse tanto de bagagem histórica. Não foram tantas salas que conseguiram preservar a sua estrutura original, a tela grande daquele tamanho, a localização no centro da cidade. Se conseguirem reconstruir utilizando o projeto arquitetônico original, será uma homenagem perfeita''
Rodrigo Grota, cineasta
A última projeção
''Fiquei impressionado quando entrei no Ouro Verde pela primeira vez: o tamanho da tela, as luzes nas laterais, tudo criava um clima único. O local sempre foi palco de uma história muito rica, muito diversa. Para mim, existe ainda uma questão muito especial: o primeiro filme que dirigi, ''Londrina em Três Movimentos'', foi exibido no Ouro Verde. Eu lembro que, no dia, o cinema estava lotado, e tinha aquela tela gigante, e a oportunidade e emoção de passar o filme ali pela primeira vez, tendo toda aquela relação com o público, foi um momento marcante. Acredito que nosso último filme (''Haruo Ohara'', de 2010) tenha sido também a última projeção em uma sessão de cinema no Ouro Verde.
Emoções em conjunto
''A cidade perde o seu grande templo cultural. Apesar de todas as críticas feitas ao Ouro Verde - boa parte delas procedentes, porque ele não foi construído como um teatro - o local foi palco de muitas jornadas, muitas apresentações marcantes na história da cidade. Desde quando era moleque eu frequentava o Ouro Verde. A minha escola, o Vicente Rijo, levava a gente lá para assistir a filmes. Tive a honra de tocar música naquele palco, participando de festivais. Depois, participei de teatro com o grupo Delta. Depois espetáculos da Escola de Teatro e do Armazém. Recentemente, até meu filho cantou ali em um coral, de uma forma que a minha família tem uma relação emocional muito forte com a história do Ouro Verde.
Acho que a questão é que, arquitetonicamente, o teatro é a secção de uma curva, um círculo, é a forma ancestral de apresentação dos homens. Acima de tudo, um teatro é um lugar onde as pessoas vão para se ver, para experimentar emoções coletivamente. Nós perdemos mais que apenas um espaço, perdemos um local onde nos reconhecemos, coletivamente, como sociedade londrinense. Quando você está assistindo a um espetáculo, você está rindo ou chorando coletivamente. Nunca é algo individual. É a comunidade que está rindo, é um grupo de pessoas que está se emocionando, que está vivenciando emoções em conjunto. Neste sentido, um teatro é um lugar essencialmente político.
Mesmo sendo uma perda irreparável, o que a gente espera agora é que exista um esforço político para a reconstrução do teatro. Aquele espaço, onde Ouro Verde estava, é onde estava localizada a antiga Companhia de Terras, é onde a cidade foi dividida, onde distribuíram lotes e terrenos. É curiosa essa vocação de Londrina: onde o ingleses chegaram para vender terras, para formar a cidade, nós erguemos um teatro.''
Maurício Arruda Mendonça, dramaturgo
''A perda é imensa. Além do patrimônio histórico, cultural e arquitetônico - que, por sinal, é tombado - existe a perda de um espaço cultural do qual Londrina é carente. Já existiam poucos espaços para a cultura na cidade, depois desse incêndio, existem menos ainda. Um monumento desta magnitude, se perder desta maneira, é lamentável. É difícil definir o tamanho desta perda. É algo que me deixa meio sem palavras.
Ali, eu assisti ao Piazolla, vi o Proteu, acompanhei os festivais de Teatro, ouvi músicas de muitíssima qualidade, exposições de arte importantes. Vivi muita coisa no Ouro Verde, momentos que me tocaram e que agora ficam apenas na memória, na lembrança. O espaço fazia parte do meu dia a dia, e não apenas como fluidora de manifestações artísticas. Transitei muito naquele teatro, enxerguei as entranhas do Ouro Verde, conheci os corredores que não são abertos para a circulação do público. Tudo isso faz parte de um conjunto emocional muito grande. Por mais que tentem refazer, reconstruir, existe alguma coisa que se perdeu, para sempre, nesta história.
Iara Strobel - artista plástica





