De pai para filho
O turismo chegou lá, mas Maraú não abandonou sua rotina secular. Pelo menos por enquanto. Nesta região ainda pouco explorada surgem habitações precárias de tijolos de barro cozido e teto de palha de piaçava. São os povoados de Caubí, Saleiros, Mata-Fome, Tremembé, Quitungo, Cajaíba, Saquaíra e Algodões, onde vive gente simples que segue antigos ofícios primitivos da era colonial. Caso da produção comunitária de farinha de mandioca e de óleo do dendê, e de uma apurada técnica de construção naval.
Grande parte dos 27 mil habitantes locais tira do mar e dos mangues a maioria dos recursos para a sobrevivência. A pesca é realizada de forma artesanal: entrelaçando a palha da piaçava com a cana-brava (tipo de junco que nasce na beira do mangue), os habilidosos nativos tecem armadilhas que confinam peixes e crustáceos. A gamboa, uma delas, é também vendida como peça de artesanato, pois pode servir de cortina ou esteira. Feita somente sob encomenda, custa a partir de R$ 40. O manzuá, outra arapuca, faz as vezes de luminária.
De fala arrastada, meio desconfiado dos forasteiros, Elíseo Santana é um típico habitante desse trecho do litoral baiano. Ele toma conta dos dendezais da Ilha do Tubarão e transforma a frutinha vermelha em um óleo utilizado no preparo de comidas típicas, que também serve para fazer velas e sabão. ''Produzo mais de cem litros por dia'', conta, orgulhoso. O processo é todo manual, como se fazia há séculos. Uma roda de pedra, arrastada por um jegue, mói o fruto transformando-o numa mistura pastosa à qual é adicionada água. Em seguida, o líquido é fervido em um tonel em fogo lento para refinar.
Santana tem muitos companheiros. Gidésio Demétrio Xavier posseiro do Morro da Boa Vista, formou no local, com suas duas mulheres, uma família composta por 36 filhos. E 36 netos. ''Há 30 anos aqui era tudo deserto. Na época havia somente 20 moradores.'' Para ele, o concubinato é natural.
Há sete anos, abriu um bar no topo do morro, hoje chamado também de Morro do Celular, pois ali existe sinal para os aparelhos. O nativo cultiva, sobretudo, a fé ecológica e denuncia a pesca predatória do camarão.
Respeito ao meio ambiente parece ser regra na península. Manoel Bonfim, outro simpático habitante, se dedica à reciclagem natural seguindo uma sabedoria ancestral. Aos 74 anos, quebra cerca de 500 cocos secos por dia. Lixado e polido, o casco se transforma em cintos, açucareiros, cinzeiros, colares, bolsas, esculturas e até jangadas. Os preços: entre R$ 3 e R$ 25.
Arte tradicional é o lema também no povoado de Cajaíba, às margens da Baía de Camamu, onde segue-se a construção de embarcações. Com um pouco de sorte é possível chegar lá no dia de ''correr'' (colocar na água) o barco. Na ocasião, toda a vila se entrega à festa. São mais de 10 estaleiros. A maioria dos meninos aprende a arte com os pais. Fazem de tudo: desde perfeitas miniaturas, que levam até cinco meses para ficarem prontas, até escunas gigantescas, produzidas em anos de boa carpintaria. As embarcações são trabalhadas em madeira de lei e as peças, entalhadas artesanalmente pelos pequenos mestres.





