Os estudiosos da história da fotografia expressam admiração ao ouvir o nome de Marc Ferrez. Pioneiro da fotografia no País, em pleno século XIX ele rompeu com padrões. Em vez de utilizar a foto apenas com função retratista e comercial, como era tradição na época, Ferrez a utilizou como auxiliar da medicina, geologia e astronomia, e foi o primeiro a fotografar índios e navios em alto-mar, em uma época em que ainda não existia o instantâneo (filme fotográfico popular, que não necessitava de revelação imediata).
Até onde se sabia, os filhos de Marc não seguiram o ofício do pai, enquanto alguns netos escreveram publicações sobre fotografia, mas sem praticar a captura de imagens. Esta visão começou a mudar recentemente, através da exposição ''Família Ferrez: Novas Revelações'', em cartaz até o dia 21 na Casa Romário Martins, em Curitiba, dentro da programação do Centro Cultural Banco do Brasil Itinerante, que patrocina a mostra em todo o País.
O nome da exposição não poderia ser mais apropriado. As imagens, até então inéditas para o público, foram selecionadas a partir de um arquivo pessoal da família, composto de mais de 8 mil negativos, de autoria de Luciano, Julio (filhos de Marc Ferrez) Gilberto (filho de Julio), que formam um extenso painel do Brasil da primeira metade do século passado.
Boa parte dos registros são de viagens pelo Brasil e por países da Europa e África, que abordam não apenas paisagens, arquiteturas e pontos históricos, mas também o cotidiano dos habitantes. Outra parte das fotos mostram episódios que marcaram a história do Rio de Janeiro quando ainda era a capital do Brasil, na primeira metade do século XX.
Além da beleza e do ineditismo das imagens, outro fator que causa surpresa é saber que Luciano, Julio e Gilberto não eram fotojornalistas. ''Os três fotografavam apenas para consumo próprio'', comenta Júlia Peregrino, que ao lado de Pedro Karp Vasquez, fez a curadoria da exposição. ''Quando descobrimos o acervo que eles deixaram, ficamos surpresos com a qualidade do material. Com esta exposição eles deixam de ser amadores para se tornarem profissionais'', conclui.
Entre alguns dos episódios da história da capital fluminense estão a destruição do calçadão da Avenida Beira Mar pelas ondas de uma uma violenta ressaca, a construção de prédios que comemoravam o centenário da Independência, em 1922, a passagem do balão dirigível Graf Zeppelin pelo céu, a derrubada do Morro Castelo para construir o aterro do Flamengo e demolições de ruas inteiras para abrir a Avenida Presidente Vargas. ''São episódios que mostravam o progresso chegando ao Rio de Janeiro'', comenta Peregrino. ''É interessante ver a preocupação que eles tinham em registrar a memória da cidade''.
A vida íntima dos Ferrez também se faz presente, através de imagens de reuniões familiares e passeios. ''Eles tinham os genes de Marc Ferrez'', brinca Peregrino. Mesmo nestas, a vida pessoal se mistura com eventos externos e registros históricos. ''Os critérios de seleção das fotos eram a qualidade do material e a importância do registro histórico. E mesmo quando era registro histórico, a qualidade não diminuía'', completa.
Nas paredes da Casa Romário Martins estão 55 ampliações emolduradas. Há ainda oito álbuns em bancadas, que apresentam outras 177 fotos, totalizando 232 imagens. ''Esta é uma forma de não cansar o expectador. As ampliações nas paredes são essenciais. Se a pessoa quiser ver mais, vai para os álbuns. Lá há fotos que são quase um making of de acontecimentos importantes que eles presenciaram'', explica.
Os irmãos Julio e Luciano Ferrez têm registros captados nas décadas de 10 e 20 do século passado. Julio centrou-se em países como Portugal, Itália, França e Suíça, além dos arredores de sua cidade. Luciano tem fotos da França e dos estados de Minas Gerais e Rio de Janeiro. Já Gilberto, por ter fotografado em uma época em que as viagens eram menos difíceis de serem realizadas, passou por diversos países da Europa, pelo Senegal, na África, e viajou muito por quase todo o Brasil, inclusive pela Região Sul.

Serviço
- Família Ferrez: novas revelações
Quando - Até 21 de dezembro, de terça a sexta-feira das 9h às 12h e das 13h às 18h, sábados e domingos das 9h às 14h
Onde - Casa Romário Martins (Largo da Ordem), em Curitiba
Mais informações - (41) 3321-3255

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