Idéias não surgem do nada. Você precisa ter um desafio, uma necessidade, um problema a ser resolvido antes de se amontoar delas, querendo resolvê-las. Qualquer idéia é também a realização de algum problema, dá trabalho, serviço, pode ser que não fique do jeito pensado inicialmente, que custe caro demais, que se torne inviável. Idéias são boas quando não paralisam a gente. Quando não são usadas para fuga da ação. Mas não há por que temê-las. Elas estão no ar. E, às vezes, caem sobre nossas cabeças como aviões do céu. É perigoso, difícil, mas pode ser a chance da sua vida: a invenção de um super jogo. De uma máquina revolucionária de fritar pastéis. A realização de uma passeata, de uma viagem e o infinito, porque as idéias não param de se produzirem e reproduzirem aos milhões. A questão é a idéia certa na hora exata. Dentro daquilo que você está fazendo. A energia que impulsiona a realização da criação é que é o sublime do ser criativo.
Entre a gênese e o trabalho realizado e pronto, o resultado pode se tornar totalmente diferente do que havia sido imaginado inicialmente. O que pode levar o autor a uma terrível frustração, ou, por outro lado, a uma extrema satisfação, se ele for alguém mais interessado pelo processo do que pelo produto finalizado. No meio dos dois extremos, há sempre um bocado de adaptações e improvisações que vão ajustando a obra ao mundo do qual ela vai fazer parte. O importante é manter o conceito inicial intacto, porque a crítica não aceita desculpas por um trabalho que pareça mal acabado, ou mal feito, a não ser que isto faça parte da estética proposta. Pode ser. A estética do precário, do provisório e do impermanente pode ser tão válida quando aquela que prega uma estética asséptica e descontaminada de influências e contexto cultural. Não foram materiais como pedrinhas encontradas na rua e saquinhos plásticos que Lygia Clark elaborou a parte mais contundente de sua obra? Pois é, em plena Paris dos anos 60, lá estava ela, dura, sem grana, se virando para dar vazão à potência poética de suas proposições, pensamentos e idéias.
A idéia de Picasso de colocar máscaras africanas no rosto das ''Demoiselles d'Avignon'', acabou mudando todo o sentido do que a pintura deveria se ocupar desde então. Quer coisa mais ridícula do que a roda de bicicleta sobre o banquinho de Duchamp? E no entanto, tudo o que se pensava sobre arte foi substancialmente alterado.
Algumas idéias simples podem dar um trabalhão, mas as idéias quanto mais simples mais geniais são. Quanto mais naturais parecem, mais elaboradas internamente, mais cultivadas. Porque traduzem a capacidade de síntese da mente humana. ''Uma, duas, três cadeiras'', obra de Joseph Kossut, ícone da arte conceitual, nada mais é do que a apresentação de uma cadeira fotografada, a definição do termo cadeira pelo dicionário e uma cadeira, mesmo. Todas expostas como conjunto formando uma obra só.
Quem diz que ter idéias é fácil, talvez não compreenda que é por falta delas que muita coisa boa deixa de ser feita. Elas não caem do céu como aviões sobre nossas cabeças, mas quando isto acontece, o melhor é saber antes o que elas querem nos dizer, se é que dê tempo!
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