LONGA METRAGEM
‘‘De Olhos Bem Fechados’’: um
Réquiem para Stanley Kubrick

Paulo Polzonoff Jr
A tão propagada nudez do sexy-couple Nicole Kidman e Tom Cruise no novo filme de Stanley Kubrick, ‘‘De Olhos Bem Fechados’’ (Eyes Wide Shut, 1999) não passa de coadjuvante de uma história que sequer sobre sexo é. A obra trata, isto sim, da sublimação da libido imposta por valores sociais há muito estabelecidos, como o casamento, fidelidade e honra. Se o enredo é básico, com Bill (Tom Cruise) saindo pela noite nova-iorquina atrás de algo parecido com vingança contra a descoberta de que sua até então insuspeitíssima mulher, Alice (Kidman), traiu-o em pensamento, Kubrick o transforma com maestria num mergulho no mundo dos relacionamentos neste fin-de-siScle.
Muito se especulou, em vão, sobre a autoria final do filme, já que Kubrick morreu poucas semanas após o término das filmagens. Bobagem. Lá estão os planos simétricos, a impecabilidade dos cenários, a perfeita construção dos personagens e a exímia adaptação literária que fizeram a fama de Kubrick em obras-primas como ‘‘2001: Uma Odisséia no Espaço’’ (1968), ‘‘Lolita’’ (1962), ‘‘Laranja Mecânica’’ (1971) e ‘‘O Iluminado’’ (1980). O mal falado perfeccionismo de Kubrick, capaz de deixar os atores à beira de um ataque de nervos, se revela em todo o seu esplendor na sequência da orgia da qual Bill participa como um intruso, e que é mote para uma série de especulações num tom de suspense que se prolonga até um anti-clímax bem ao gosto do diretor, que surpreende o espectador pelo nãoacontecimento do previsível.
A cena em questão, uma orgia numa mansão nos arredores de Nova York, tem direção de arte de John Fenner e Kevin Phipps e é uma verdadeira profusão de luzes e cores em tons medievais, que nos remetem irremediavelmente à obra dos gênios da pintura Vermeer e Bosch. A música que permeia todo o filme provém do piano intimista de Liszt e da dodecafonia de Dmitri Shostakovich. Tudo isto para mostrar a estupefação de Bill diante do carnal in extremis da orgia, e confrontá-lo com a idéia ritualística, quase macabra, que o sexo ainda carrega, como um tabu eterno que nem toda a liberalização deste fim de século conseguiu erradicar.
Claro que as referências a Freud existem, uma vez que a obra em que foi baseado o filme, ‘‘Traumnovelle’’, de Arthur Schnitzler, é contemporânea do pensamento freudiano, mas o conhecimento das teorias psicanalíticas não é necessário à contemplação e compreensão do filme. Para quem quiser se deliciar com mais esta sutileza de Kubrick, porém, basta aqui um exemplo: a cena da morte do pai de Marion (Marie Richardson) em que esta, ainda possuída pela dor da perda, declara seu amor instantâneo a Bill ao mesmo tempo em que trai o noivo, Carl (Thomas Gibson). Morte, sexo, infidelidade, culpa e desejo reprimido, tudo condensado em alguns minutos que parecem perdidos nas duas horas e quarenta de filme.
Com ‘‘De Olhos Bem Fechados’’, Stanley Kubrick (que desde 2001: Uma Odisséia no Espaço, não precisava provar nada para ninguém), mostra como é possível fazer um filme reflexivo e cheio de referências ao que de melhor existe nas artes sem ser pedante e obscuro, mostra como exibir a sexualidade em sua forma mais explícita com glamour e sobriedade, mostra como construir personagens consistentes sem fazer uso de frases de efeito, enfim, mostra como fazer cinema sem duvidar da inteligência do espectador.
Kubrick certamente descansa em paz.

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