DE OLHO NO PREÇO
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 08 de junho de 2000
Elisa Marilia Carneiro De Curitiba 
O mercado da arte gera sempre muita polêmica entre marchands, donos de galerias, artistas plásticos e consumidores. Numa tentativa de traçar com régua e compasso a direção dos que vivem e apreciam a arte, a jornalista Nery Baptista há 20 anos pesquisa o preço real das obras dos artitas plásticos paranaenses.
A Bolsa de Arte - uma publicação com o preço das obras de 230 artistas paranaenses - serve de referência para quem tem, quer comprar ou vender. O preço de uma obra de arte depende, exatamente como para um ator, da fama. Talento, carisma e um bom trabalho de marketing são os fatores que definem o valor final de uma obra. Essa pesquisa, publicada na Bolsa de Arte, é o preço de venda de um pintor. Não é a tabela do artista ou da galeria, afirma a jornalista.
Um pintor deve ir ao encontro do que o povo precisa naquele momento, explica Nery. Ilustrando, a pesquisadora comenta o trabalho de Fernando Calderari, o pintor mais vendido em Curitiba: ele percebeu que as marinhas agradavam muito e começou a fazê-las intensamente atingindo um público consumidor em potencial. É claro, que o trabalho do Calderari tem técnica e talento, mas o que ele faz melhor são as talhas e não tanto as marinhas.
O único pintor que tem um trabalho de marketing de peso no Paraná é Juarez Machado. O Valdir Simões tem a exclusividade de venda do Juarez Machado e realmente trabalha com o marketing para vendê-lo bem. afirma. Se ninguém falar do artista não adianta ter talento, que não vende. O Mário Rubinski foi considerado, por um crítico de São Paulo, o melhor artista paranaense, mas ele não vende nada. Isso por que as pessoas pensam que qualquer um pode fazer este trabalho, é só traçar com uma régua. A maioria não entende de arte e não houve um trabalho de marketing em cima da obra do artista, reconhece.
O artista plástico Antônio Arney, que faz colagem em madeira, é outro que não vende, apesar do talento reconhecido entre os críticos de arte. Em compensação, o que o Fernando Ikoma fizer, vende como água. O trabalho dele é comercial e é isso que faz o preço de uma obra de arte. Atualmente, em Curitiba, o que dá status é um Juarez Machado.
Para um artista ser considerado bom, tem que ter, dentro do seu estilo particular - figurativo: acadêmico ou impressionista - uma combinação criativa sofisticada, nunca antes imaginada, na composição harmônica do desenho, da cor e da forma. O quadro tem um apelo, alguma coisa que as pessoas não conseguem deixar de olhar. É nisso que reside o talento de um artista. Mas o leigo não entende isso e o trabalho comercial dispensa essas avaliações.
Um Salvador Dali, por exemplo, chama a atenção pelo surreal - uma situação insólita - da mesma forma, o Carlos Eduardo Zimermann, que coloca o real de uma outra perspectiva. Mas o brasileiro, generalizando, gosta de paisagens. Sem se importar com o inusitado da cor, do equilíbrio, da técnica.
Outra coisa que talvez dificulte a venda de uma obra, segundo Nery, é a forma de raciocinar dos artistas. Eles têm uma cabeça totalmente diferente da nossa. Alguns não querem se desfazer da própria obra e não conseguem se entender com os marchands. Mas se um marchand sabe administrar essa forma de pensar, sempre é possível um bom trabalho em parceria com os artistas. Aqui no Paraná, como no Brasil, a maioria dos artistas têm um emprego fixo e a venda as obras fica em segundo plano.
Para pesquisar e desenvolver o seu trabalho, Nery está sempre se atualizando. Vai à Europa todos os anos e compra os catálogos mais completos de arte. Na Europa, se um artista não está catalogado, não existe. Qualquer coisa importante em arte está nessas publicações. E não é só isso, Tudo vem com o preço da venda. No Brasil praticamente não existem catálogos. As vendas são feitas à deriva. No Rio de Janeiro é feito o Catálogo de Artes Plásticas, pelo Júlio Louzaga, há onze anos, que é o mais famoso e quase o único rumo do mercado das artes com 2.600 artistas de todo o Brasil. Os artistas famosos têm de estar nesse catálogo, para serem considerados.
Para configurar na Bolsa de Arte dos artistas plásticos paranaenses, Nery pesquisou um por um. Esse trabalho é uma bomba. A gente precisa ter uma couraça para suportar as reclamações. Há casos de artistas que me ligam pedindo, coloca que estou vendendo a tanto, e eu não aceito. Se foi feito um desconto, por exemplo, eu publico o preço final. Se alguém compra um quadro numa galeria e depois de um tempo tenta vendê-lo pelo mesmo preço e não consegue, então não pagou o preço real. E o artista está sempre precisando de dinheiro, então as pessoas acabam cortando caminho indo direto no ateliê e levando os quadros mais baratos. O próprio artista concorre com a galeria e isso deixa os marchands furiosos. E há ainda mais um agravante: cada quadro é uma obra diferente, única.
A publicação Bolsa de Arte, de Nery Baptista está à venda na Galeria Acervo (Rua Presidente Taunay, 829), na Revistaria da Rua Vicente Machado, 212; no Antiquário Anjo Barroco (Rua Dr. Muricy, 1019, em Curitiba) e na banca de jornais e revistas do Bom Retiro, Rua Nilo Peçanha esquina com Carlos Cornelsen. O preço é de R$ 7,50.


