DE OLHO NO MERCADO BRASILEIRO
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 22 de maio de 2001
Antonio Carlos de Faria Agência Folha 
A grande estrela da 10ª Bienal Internacional do Livro do Rio de Janeiro não é nenhum dos escritores nacionais e estrangeiros, mas Emiliano Martínez, 60, presidente da Federação dos Grêmios de Editores da Espanha.
No comando de uma organização com mais de 800 editoras, Martínez representa o mais novo segmento empresarial espanhol interessado em entrar no mercado brasileiro, seguindo os passos já dados nos setores de energia, telefonia, financeiro e comercial.
A indústria editorial espanhola faturou cerca de US$ 4,2 bilhões no ano passado o dobro da brasileira , isso sem levar em conta as exportações, que chegaram a quase US$ 400 milhões.
Os espanhóis querem comprar mais editoras do Brasil (governo brasileiro é considerado o maior comprador de livros escolares do mundo), avisa Martínez, como já fez o grupo Prisa, que em março comprou a editora Moderna, uma das quatro maiores brasileiras, por R$ 150 milhões. A seguir, trechos da entrevista de Emiliano Martínez.
Por que as editoras espanholas estão interessadas no mercado brasileiro?
Porque a indústria editorial espanhola tem a tradição de trabalhar em distintas modalidades, voltada para o mercado interno, para a exportação e com implantação em outros países, principalmente na América Latina. O mercado brasileiro é diferente dos outros países latino-americanos, por ser maior e pela diferença da língua. Por isso temos que encontrar fórmulas específicas para nossa entrada aqui.
Quais seriam as fórmulas?
Penso no desenvolvimento de projetos editoriais conjuntos com editores brasileiros.
Entre essas fórmulas, está também a compra direta de empresas nacionais. Quantas editoras espanholas estão comprando editoras brasileiras?
Não posso falar em números, mas há mais de um negócio em andamento, e isso vai crescer. Com o desenvolvimento econômico do Brasil e o maior poder de consumo, há setores editoriais que acompanharão esse movimento.
Quais?
Logo, o literário. Mas também os livros práticos, de hobbies, técnicos e científicos. Há um outro lado que nos interessa imediatamente. A indústria brasileira de livros tem bons produtos infantis e juvenis que queremos levar para a Espanha.
Hoje, a presença da literatura brasileira na Espanha é quase nenhuma?
É muito pequena. Dos 70 mil títulos que lançamos anualmente na Espanha, 16% são traduções. Desses, só uns 200 títulos são traduzidos do português. Com a riqueza dos livros infantis e juvenis que há no Brasil, é seguro que haja na Espanha muito mais mercado do que isso para escritores brasileiros.
As exportações espanholas de livros vão principalmente para a América Latina?
Sim, mas também para os países da Europa, para os quais exportamos produtos já nas próprias línguas. Não nos limitamos a publicar em espanhol. É preciso uma política de expansão constante, ganhando competitividade para disputar o mercado mundial.
A entrada de grandes grupos espanhóis no mercado brasileiro não vai levar a uma exclusão dos editores nacionais?
Isso é impossível. Ninguém monopoliza nunca um mercado, muito menos um tão grande como o brasileiro, com tantas possibilidades de crescimento. Eu acredito em associações com editores brasileiros para dinamizar ainda mais o mercado local. Acreditar que um mercado possa crescer sem investimentos e sem a valorização dos autores é um absurdo. A entrada de capital externo no Brasil levará ao crescimento do mercado editorial, por investimentos em novos lançamentos de qualidade.


