O cibermundo é habitado por dois seres, os voyeurs e os exibicionistas. A simbiose garante a sobrevivência dessas duas espécies que, como outras comunidades na internet, encontram na realidade virtual um ambiente adequado para crescerem e se multiplicarem em tempo real.
De olho nessas duas metamorfoses ambulantes, a internet transformou o exibicionismo numa âncora de grandes negócios para empresas como a News Corporation. Um dos maiores conglomerados de mídia do mundo, controla os estúdios de cinema e canais de TV paga, FOX, as operadoras de TV por assinatura SKY e DirecTV, o jornal New York Post, entre outros, dirigida pelo magnata Keith Rupert Murdoch, que comprou, em 2005, o MySpace por US$ 580 milhões.
O MySpace e YouTube são duas janelas de onde qualquer pessoa pode pular na intimidade dos outros ou tornar a própria vida uma praça pública para os bisbilhoteiros frequentarem.
Herdeira da rede de hotéis Hilton, a patricinha Paris Hilton não foi a primeira nem será a última a entregar a sua privacidade de bandeja na tela do computador dos curiosos.
Ela expôs não só a própria vida, mas a dos amigos e de celebridades, através de cartas de amor, conversas telefônicas, fotos e vídeos, com cenas de exibicionismo, nudismo e lesbianismo.
Sexo ficou apenas na insinuação. Os vídeos parecem ter sido gravados pouco antes ou depois das relações.
David Henry Thoreau (1817-1862) afirmou que a maioria dos homens leva uma vida de tranquilo desespero.
A internet e toda a parafernália tecnológica que o poeta, naturalista e filósofo não conheceu, são capazes de expurgar em tempo real, potencializando o impacto social, político e cultural de qualquer manifestação da alma humana.
Papo-cabeça que os voyeurs e exibicionistas não estão nem aí, esquecendo que na era digital não só o que você diz poderá ser utilizado a favor ou contra você - dependendo das mãos em que cair - como também o que exibir, já que estamos vivendo em um novo mundo cercado de câmeras por todos os lados.
No filme ''Invasão de Privacidade'' (EUA,1993), direção de Phillip Noyce, com Sharon Stone, Tom Berenger e William Baldwin, enquanto um morador observa todos os outros por câmeras, acontecem misteriosos assassinatos - enredo que ilustra essa nova sociedade vigiada por bisbilhoteiros.
Baldwin chegou a filmar uma cena de nu frontal, mas pediu para não entrar na versão final do suspense. Outros, que não têm o argumento artístico para a exposição, mas que querem apenas se exibir, não hesitam em dividir com estranhos a intimidade, posando para as lentes da webcam.
Marcelo é o nome que os internautas conhecem do funcionário público federal e que, mesmo com um salário de fazer inveja para muita gente, já fez programas, agendados pelo internet.
Ele diz que, atualmente, não precisa mais ganhar dinheiro com o corpo, mas que gosta de se exibir na rede - preferência compartilhada pela esposa, que mora em Portugal.
Num fórum sobre exibicionismo na internet, a mulher de Marcelo postou: ''O meu nome é Michele. Adoraria me exibir para você. Eu não sou garota de programa, mas gosto de me divertir''.
Marcelo diz que prefere mulheres, revelando que já se relacionou com homens. O rapaz afirma que não tem preocupação de ver a sua imagem rolando na rede. ''Hoje, não me preocupo. Depende muito do uso que farão da minha imagem. O medo é de me associarem a algum ato criminoso. Para mim, a exibição na internet é legal. Sei que as pessoas que estão vendo uma foto minha ou em tempo real pela webcam, devem estar sentindo prazer'', comenta Marcelo.

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