Toda cidade com aspirações cosmopolitas conta com um circuito cultural gratuito. Londrina não foge à regra ao oferecer, nas mais variadas linguagens artísticas - de teatro a música, de dança a cinema, sem esquecer da literatura e das artes plásticas - vários espetáculos abertos ao público. Quem não se lembra, por exemplo, da superprodução ‘‘www.sandman.nl’’, da trupe holandesa ‘‘The Lunatics’’, um dos 15 grupos internacionais presentes ao FILO deste ano, apresentada no aterro do lago Igapó para um público estimado em 6 mil pessoas? Ou do ‘‘Cinema ao Luar’’, promoção da Aliança Francesa no ano passado e também realizado às margens do lago, com entrada livre?
  Essa efervescência cultural está ligada à história de Londrina, a uma tradição que cresceu junto com a cidade, estimulada pela mistura de etnias - 41, de acordo com a Secretaria de Cultura -, pelo acréscimo de ‘‘sotaques’’ das mais diversas regiões brasileiras e pela fermentação do pensamento acadêmico, com a consolidação da UEL, no início da década de 70. Fazendo jus a esse pioneirismo, Londrina foi a primeira cidade do Paraná a aprovar a lei de incentivo à cultura, em 1992. Isso, sem dúvida, estimulou ainda mais sua produção cultural, mas não interferiu diretamente na tradição dos bons espetáculos, que já estava consolidada, como comprova a longevidade dos festivais mais conhecidos, como o FILO, em sua 36ªedição, e o Festival de Música, que será realizado este ano, de 6 a 19 de julho, pela 23ªvez.
  Público e privado misturam-se, igualmente, no incentivo à geração e à difusão gratuita da cultura. No setor privado, a Associação Médica de Londrina (AML) é uma das referências de maior destaque na cidade. Há 11 anos oferece em sua sede, na região central, uma programação que engloba de ‘‘Encontros Musicais das Segundas-feiras’’, às 20h30, com a apresentação de recitais, a ‘‘Cinema em Vídeo’’, aos sábados, às 17h00, até ‘‘Ópera aos Domingos’’ (DVD), às 16h00. Na coordenação dos eventos, desde o início, está Fernanda Jiran, professora de português e literatura aposentada, que se mostra incansável no trabalho de difusão do erudito, pondo em tudo uma preocupação didática. O público mais assíduo, formado por ‘‘aposentados, professores, estudantes, cinéfilos e vizinhos da Associação’’, como relaciona Fernanda, ‘‘diverte-se e aprende’’, seja participando de debates com profissionais das mais diversas áreas a respeito dos temas dos filmes apresentados, seja conhecendo em maior profundidade as óperas exibidas, por meio de libretos preparados pela professora. O resultado desse empenho é que a sala de eventos da Associação, com 150 lugares, está sempre lotada.
  No setor público, a Secretaria Municipal de Cultura coordena a aplicação da lei de incentivos, buscando permanentemente uma contrapartida gratuita para a cidade, como explica o secretário Bernardo Pelegrini. Ao mesmo tempo, procura viabilizar o diálogo cultural entre o centro e a periferia por meio da Rede da Cidadania, que promove, atualmente, cerca de 60 oficinas culturais em 16 pontos dos bairros mais afastados e incentiva a formação de um público de qualidade para espetáculos mais elitizados. Já a UEL, por intermédio de seus projetos de extensão e instituições oficiais, como a Casa de Cultura, encarrega-se de fazer a arte circular nas mais diferentes direções. São recitais de música antiga e apresentação de corais, com grupos formados na UEL e por ela mantidos; concertos com a Orquestra Sinfônica da Universidade; recitais mensais, aos domingos pela manhã, com músicos de renome nacional e internacional; feiras; exposições... Esses espetáculos gratuitos costumam ter, como palco principal, o Cine-Teatro Ouro Verde, com 850 lugares, mas podem prescindir de um enquadramento formal, chegando às escolas, ao campus da universidade e às ruas da cidade. ‘‘A arte é um patrimônio da humanidade’’, afirma Kennedy Piau, diretor da Casa de Cultura, ‘‘e, nessa perspectiva, seu acesso deve ser sempre facilitado’’.
  Já a Biblioteca Pública de Londrina, outra instituição de peso na vida cultural da cidade, quer mostrar, de acordo com a Assessora de Eventos, Ninfa Vitória Ciquini, que ‘‘há várias formas de leitura, além daquela de livros e revistas’’. Ninfa refere-se às exposições de pintura, à apresentação de filmes, aos espetáculos teatrais, aos shows musicais, às festas populares, às oficinas e cursos, que a Biblioteca promove regularmente em sua sede ou no vizinho Teatro Zaqueu de Melo, com capacidade para 180 pessoas, ou ainda na Gibiteca, nas imediações do lago Igapó. A programação é variada, os horários, acessíveis, e o custo, em geral, nenhum. A instituição recebe um público eclético, do infantil ao de terceira-idade, e até mesmo quem está à procura de emprego, que ali encontra um mural, renovado diariamente, com uma relação de oportunidades no mercado, além de vídeos de treinamento na área empresarial, disponibilizados pelo SEBRAE e que podem ser assistidos às segundas e sextas-feiras, às 10h00. Com tudo isso e ainda garantindo acesso gratuito à Internet, a Biblioteca naturalmente registra um grande movimento. Mesmo assim, os números surpreendem. Todo mês, passam por lá cerca de 40 mil pessoas, sendo que chegam a receber, como informa Ninfa, ‘‘até 3 mil freqüentadores num único dia’’.
  Mas as ofertas culturais gratuitas multiplicam-se pela cidade, podendo ser encontradas em galerias, espaços culturais, museus, associações, instituições, escolas, universidades... Talvez, para usufruir de tantas opções, tudo seja apenas uma questão de manter os olhos abertos e os ouvidos atentos, principalmente os ouvidos, como aconteceu ontem, dia 21, quando se comemorou o Dia Internacional da Música com a ‘‘Fête de la Musique’’, organizada pela Aliança Francesa. Ao longo do dia, bandas marciais, cantores, grupos de música erudita e popular apresentaram-se nos mais diferentes pontos da cidade - do Calçadão ao Camelódromo -, com o objetivo de difundir gratuitamente a música, em uma festa cultural que tem a cara de Londrina!

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