Um início original e intrigante pretende um lugar na memória das antologias: um policial confessa a uma câmera de vídeo o primeiro de vários assassinatos. Este prólogo de ''As Duas Faces da Lei'' (veja a programação de cinema na página 2) desperta curiosidade porque se dirige ao desconcerto do espectador. Como é possível revelar a culpa do protagonista, do astro, logo no primeiro momento? O que mais virá depois?
Este sopro de novidade, no entanto, se dissipa aos poucos por conta da artificialidade do roteiro e pela concepção do filme como espetáculo somente de interpretações, um veículo para o brilho (opaco) de suas estrelas. ''As Duas Faces da Lei'' é desses filmes cujo argumento dá até preguiça de resumir. Dois detetives, Turk (Robert De Niro) e Rooster (Al Pacino), embora com idade para a aposentadoria, se esforçam para demonstrar a boa forma - atiram com precisão, golpeiam com eficiência, treinam na academia e correm com invejável agilidade. Estão juntos em novo caso, o do indivíduo que se dedica a eliminar um bom número de criminosos que a justiça não puniu como mereciam. A conclusão óbvia é que em realidade o assassino só pode ser um... policial.
Nada que o espectador já não tenha visto antes, no cinema ou na tevê, ainda mais agora, com este congestionamento de séries criminais e suas temporadas com mais do mesmo. A evolução da trama é incapaz de manter o ritmo necessário para que o espectador se interesse pela narrativa. Recorrentes flashbacks e uma câmera de vídeo como testemunha muda procuram manter a incerteza e prolongar o momento da surpresa. O conjunto pode ser qualificado de banal, tedioso e manipulador. Há uma agravante, um clássico da falta de imaginação, aquela reviravolta para que, ao final, o público boquiaberto e apalermado exclame: ''Oh, o assassino então era esse !''
Vendo o filme, uma correlação me ocorreu. Ao contrário de alguns colegas de profissão, o recém-falecido Paul Newman se convenceu de que trabalhar vez ou outra em filmes que eram mero entretenimento como ''Inferno na Torre'' não causava dano maior à sua carreira. Mas fazer isto todos os dias, ao estilo ''O Dia em Que o Mundo Acabou'', seria de fato excessivo. Assim, desde este título, de 1980, Newman elegeu como enorme cuidado os filmes nos quais atuou, e o que se viu foram grandes interpretações crepusculares até o início deste século.
Já De Niro e Pacino parecem que optaram por fazer exatamente o contrário de Newman. Não hesitam em colaborar em número alarmante de propostas inconsequentes e inclusive medíocres. Vendo este ''As Duas Faces da Lei'' é óbvio que podem sempre fazer muito melhor do que trabalhar entre a indiferença e a autoparódia. O bom mesmo do elenco é Brian Dennehy, coadjuvante eficaz e nem sempre valorizado como merece.

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