De moto até os Andes
PUBLICAÇÃO
domingo, 22 de fevereiro de 1998
Ranulfo Pedreiro 
Arquivo pessoalÉder Alves de Oliveira faz uma pausa no caminho: percurso de Londrina até Santiago, no Chile, consumiu 15 dias de viagemO vento batia forte contra a moto enquanto Éder Alves de Oliveira atravessava a cordilheira do vale do Rio Mendoza, na Argentina. Como um vendaval se aproximava, tornou-se difícil controlar o veículo. Atrás dele seguia um argentino em uma Honda XT 200. A moto, muito leve, seguia quase em ziguezague pela pista. O medo aumentou, a velocidade diminuiu e o jeito foi parar enquanto o temporal passava.
Era justamente aventura que Éder esperava quando resolveu ir de moto de Londrina a Santiago, no Chile. O temporal na Argentina foi apenas uma etapa do trajeto que consumiu 15 dias e englobou quatro países.
O motivo da viagem foi a realização de um sonho de criança. Eu falava na infância que iria para a praia de moto, recorda. A idéia foi amadurecida e associada à vontade de conhecer a Cordilheira dos Andes e visitar o Pacífico. Tudo numa Vulcan 1.500, da Kawasaki, comprada especialmente para o percurso.
Éder e mais um amigo - cujo nome o motoqueiro preferiu não revelar - saíram de Londrina no dia 8 de janeiro às 5h30 da manhã. Na bagagem, 10 litros de combustível, para emergência, velas, faróis, ferramentas e todo o equipamento necessário para consertos de emergência, além de algumas roupas. Mais importante mesmo eram os mapas obtidos no consulado da Argentina em Curitiba que ajudaram a traçar o roteiro da dupla.
Ainda no primeiro dia de viagem entraram cerca de 250 quilômetros em território argentino. Foi também neste dia que enfrentaram a primeira blitz: Alguns guardas argentinos nos pararam para tirar fotos, pois lá não existem motos com altas cilindradas, explica Éder.
No norte da Argentina os aventureiros enfrentaram outros problemas. Como há um espaço muito grande entre uma cidade e outra, os postos são raros, e começou a faltar combustível, principalmente em função do alto consumo da Vulcan. O combustível acabou três vezes na região, e a dupla teve que utilizar a gasolina do galão reserva que Éder carregava.
Depois de Córdoba, a 35 quilômetros de Quines, a bateria da moto de Éder quebrou em pleno deserto. A Vulcan foi rebocada pela moto do companheiro até a cidade, que não passava de um vilarejo em que não havia peças para o conserto, improvisado com uma furadeira.
Já próximos à Cordilheira dos Andes, equipados com capuzes, protetores e jaquetas de couro para aguentar o frio, Éder e seu companheiro encontraram um argentino que pretendia subir as montanhas de short e camiseta. Nós estávamos preparados para baixas temperaturas, mas ele subiu um trecho de short, até que começou a tremer tanto que tivemos que parar para que ele se agasalhasse, lembra Éder. O argentino passou três dias viajando com os brasileiros e quase sofreu um acidente durante o vendaval no vale do Rio Mendoza.
Atravessado o túnel de 4,5 quilômetros que separa o Chile da Argentina, o trio chegou aos caracoles, uma estrada em ziguezague que desce a cordilheira em trajeto curto. Ali parei para tirar uma foto enquanto meus companheiros desciam. Ao sair, esbarrei numa pedra com a moto parada, ela inclinou e não consegui controlar o peso - cerca de 450 quilos. A moto foi para o chão e eu não conseguia levantá-la. Por sorte, parou um argentino que me ajudou, meio desconfiado, ressalta.
Da Cordilheira chegaram a Vi¤a Del Mar, no litoral do Chile, onde passaram dois dias. Depois seguiram para Santiago, Mendoza, na Argentina; Colônia, Montevidéu e Punta Del Este, no Uruguai, até a fronteira com o Brasil, no Chuí. Foi uma média de 600 quilômetros por dia, o que é bastante cansativo de moto. Quando a tarde caía procurávamos uma cidade com certa estrutura para passar a noite, alugávamos um quarto e dormíamos até às 6h30 do dia seguinte, quando arrumávamos a bagagem e partíamos para a estrada, recorda Éder.
A chegada em Chuí foi um alívio para a dupla: Pisamos em solo brasileiro e pensamos: Estamos em casa, aqui não temos problemas com idioma e a gente se vira bem mais fácil.
Éder, que trabalha com informática em Londrina, já está pensando em voltar para a Cordilheira em setembro. Também desejo conhecer Ushuaia, na Patagônia, talvez em dezembro ou janeiro. Mas para esse projeto eu terei que trocar de moto porque o roteiro tem muita estrada de terra e muita neve, vou precisar de um veículo mais apropriado ao trail, e o meu é mais para asfalto.
Mas antes de decidir a próxima viagem o londrinense precisa de um novo companheiro: O rapaz que viajou comigo não pensa em viajar tão cedo, e o mais difícil nesse tipo de aventura é arranjar companhia. Por isso, se alguém topar, pode entrar em contato comigo. O que importa é cair na estrada novamente.


