De mocinha a megera
PUBLICAÇÃO
domingo, 06 de setembro de 2009
Fernanda Brambilla<br> Agência Estado 
Em seu primeiro papel na TV, Lucélia Santos estrelou, aos 19 anos, a novela que se tornaria a mais exibida no mundo. A fama de ''A Escrava Isaura'' foi parar na China, mas foi como mocinha sem-vergonha que Lucélia tornou-se musa até de Nelson Rodrigues. E escandalizou o cinema nacional. Com 35 anos de carreira, Lucélia, 52 anos, cansou de contar sua história e, hoje, odeia dar entrevistas. Fala mal da mídia; da relação com o filho e ator Pedro Neschling, do que acha de casamentos e do budismo.
- Sua aparente chateação é por que pensa que todo mundo inevitavelmente vai lhe perguntar de 'A Escrava Isaura'?- É. Não tenho nada a acrescentar, tudo o que tinha que declarar, já declarei. São temas batidos. Até o Jô Soares sucumbe à Escrava Isaura. Põe cenas da novela e as legendas em todas as línguas. Até o Jô.
E você se irrita de lembrar?
Eu odeio dar entrevista. Odeio. Não tenho paciência, é sempre a mesma coisa. Realmente acho chato. Fazer programas de TV ainda acho mais divertido. Mas entrevistas por escrito, porra, não tô fazendo biografia, não tenho saco de ficar respondendo.
Você se tornou musa de Nelson Rodrigues e estrelou vários filmes - ''Bonitinha, mas ordinária'', ''Engraçadinha'', ''Álbum de Família'' (1981). Pode lembrar como era a relação com ele?
Já contei muito essa história do Nelson! Não aguento mais repetir, é muito chato.
O cinema serviu para romper a imagem de boazinha. Foi uma guinada consciente?
Sim, absolutamente! Quis fazer esses filmes por causa disso. Senão eu ia ficar com essa imagem romântica, de personagens santinhas. Sou uma atriz, e não uma alienada.
Você se arrepende de algo?
Sabe, isso não tem sentido pra mim, na minha filosofia. Realmente tem algumas coisas que eu fiz na minha vida e que não faria se tivesse uma visão espiritual, um esclarecimento.
Você é uma pessoa vaidosa?
Sou capaz de ir com a minha roupa mais mulambenta no melhor restaurante da cidade, de chinelo. Aliás, eu vou. Outro dia levei um choque comigo mesma, porque tinha trabalhado o dia todo, aí fui encontrar o Pedro (Neschling, seu filho) num restaurante famoso do Rio. Nem me toquei como eu estava. Quando olhei, estava de Havaianas e uma roupa toda puída. Eu não tô nem aí.
O budismo mudou seus hábitos?
Já era vegetariana, sou há 27 anos. Acho inconcebível matar um bicho daquele tamanho (boi) pra comer. Não consigo imaginar, não é parte do meu planeta. No budismo, a gente não mata nem um mosquitinho. Mas, às vezes, como peixe.
E hoje você está solteira?
Nesse momento sou solteira, mas amanhã já não sei. Não é uma opção, é uma circunstância. Tudo isso muda toda hora, muda até três vezes ao dia (risos).
Não deixou de acreditar em casamento depois que se separou? (Foi casada com o maestro John Neschling)
Casamento dá muito trabalho. Meu casamento foi uma catástrofe por causa disso. Fiz um monte de planos e deu tudo errado. Nenhum item funcionou, então aprendi na porrada. O certo seria ir para um relacionamento sabendo que vai acabar a qualquer momento, porque vai. Aí a expectativa diminui, e acaba funcionando bem.
Você e o Pedro (Neschling, 27 anos, seu filho com John) são muito unidos?Estou começando a desconfiar de que não...(risos). Há mais de um mês a gente não se vê. Nunca aconteceu isso. Liguei para ele outro dia e deixei um recado desconsolado: 'Você tem coração de isopor, você é filho de chocadeira!'
Hoje você vê TV?
Eu não vejo há muitos anos. Tenho muito pouco tempo para fazer tudo o que eu me proponho a fazer. Um dia de 24 horas para mim não dá, não consigo ficar quieta, eu invento o que fazer. Vou te dizer a verdade: ligo a TV só quando me falam que vai passar algo do Pedro, aí ligo e vejo só aquilo.
Você acaba de finalizar ''Destino'', um filme que levou 13 anos, em que atua como atriz e produtora, uma parceria com a China. Vai lançá-lo por aqui?
É um projeto muito popular, um novelão. É uma história de três gerações. Começa com um bebê, que é sequestrado pelo próprio pai para a China, com quem eu venho me encontrar 35 anos depois, através de um encontro que tenho com uma fantasma. O filme foi feito para a China. No Brasil, será uma minissérie de cinco capítulos para TV. Tenho certeza de que fará muito sucesso.


