De Londrina a Gramado sobre duas rodas
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terça-feira, 11 de março de 2003
Luciano Augusto<br> Reportagem Local 
A profissão é motorista, mas é sobre as duas rodas da Caloi 10 que o londrinense Mauro Locateli, 39 anos, se diverte viajando pelas estradas do Sul e Sudeste brasileiros. Sua última aventura foi percorrer 2.560 quilômetros pelos estados do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, em fevereiro.
Locatelli diz que, como toda criança, costumava pedalar com a molecada da vizinhança. Mas foi em 1988 que suas pedaladas começaram a ficar mais sérias, ou melhor, mais longas. Sua primeira experiência, porém, foi bastante complicada.
Ele mais um amigo decidiram ir de bicicleta até Sertanópolis (40 km ao norte de Londrina). Na ida, tudo bem: paisagem bonita, dia tranquilo, conversa amena. Hoje conta dando gargalhadas, mas o fato é que quando estavam iniciando o retorno a bicicleta quebrou. Sem possibilidade de conserto, tiveram que desistir da aventura e voltar de táxi até Londrina. No final de semana seguinte, voltaram até Sertanópolis para arrumar as ''bikes'' e na volta pegaram um temporal. ''Foi muito complicada essa primeira vez.''
Depois disso, viajou para o interior de São Paulo algumas vezes. Passados alguns anos e muitas pedaladas depois da ''bad trip'' inicial, Locatelli agora se testa em distâncias maiores. Na manhã do dia 6 de fevereiro, partiu para sua empreitada mais difícil: sair de Londrina com 17 quilos em equipamentos e vencer as serras gaúchas tendo como destino final Gramado (RS). Treinos semanais, alimentação equilibrada, percurso definido e lá foi ele para uma aventura de 19 dias. ''Peguei chuva em apenas dois dias em toda a viagem, mas o sol também deu uma boa trégua e não peguei muito calor'', amenizou o ciclista.
A primeira parada foi em Ortigueira (113 km ao sul de Apucarana). Ciclista por paixão, fez uma média de 140 quilômetros diários. O roteiro de ida foi feito pelas estradas do interior dos três estados. ''Fui mesmo para conhecer os lugares, mas o mais interessante acaba sendo fazer isso de bicicleta.'' No Paraná, além de Ortigueira, ele passou pelo Parque Estadual de Vila Velha e Curitiba, entre outras cidades.
Atravessou a divisa com Santa Catarina, onde desfrutou das belezas verdes da Serra do Mar, chegou a Corupá, passou por Blumenau, Pomerode ''uma cidade onde todo mundo fala alemão'' e, finalmente, atingiu a divisa com o Rio Grande do Sul. No extremo sul do país, visitou Canela, passou por Farroupilha e fez questão de fotografar o portal em forma de barril de Bento Gonçalves, na rota do vinho.
Na bela Gramado, conheceu todos os pontos turísticos da cidade internacionalmente conhecida por sediar um dos mais importantes festivais de cinema do País. Com fôlego sobrando, mudou a rota de volta. ''Decidi descer para o Litoral e fazer o caminho de volta pela BR-101.'' Seguiu até Torres e de lá veio percorrendo as praias do Sul até chegar ao Paraná e atravessar a serra novamente. No último dia 24 ele finalmente reencontrou a mulher, Ana Maria, 37 anos. ''Ela é a única que me apóia. Para o resto da família eu sou um louco'', confessa.
O pior nestas viagens, segundo o aventureiro, ''são as condições das estradas, que estão bem ruins em muito trechos''. Em Santa Catarina, de Rio do Sul a Pouso Redondo, por exemplo, a pista não tinha acostamento. ''Eu andava alguns metros e tinha que parar para esperar os caminhões passar.'' A BR-101 de Torres (RS) até Palhoça (SC) também não possui acostamento e o ciclista teve que usar a terceira faixa.
Para aqueles que querem iniciar a vida sobre duas rodas usando a perna como motor, Mauro ensina que acima de tudo é preciso determinação e gosto pelo ciclismo. ''Eu mesmo, se fosse pela primeira viagem, teria vendido minha bike para nunca mais andar. Quando se faz o que gosta, não dá para cansar nem para reclamar de nada.'' Dando provas de que não está disposto a aposentar a bicicleta, nem as pernas, ele revela que já estuda o próximo roteiro: a cidade histórica de Ouro Preto, em Minas Gerais. Seu desafio será transpor as montanhas mineiras, num trecho de mais de 2.500 quilômetros.


