De lagos suíços a vinhedos
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segunda-feira, 03 de novembro de 1997
Agência Estado 
DivulgaçãoParreiraisNa Alsácia, cidades fortificadas, com torres cor-de-tijolo se destacam no mar verde de parreiras que se ondula até o horizonteDepois de dar a volta no lago de Como, chega-se à Suíça à beira do lago de Lugano. A única coisa com preço razoável é um passeio de lancha. Uma hora, para até quatro pessoas, custa R$ 40 e dá para ver como deve ser boa a vida dos donos daquelas casas enormes e maravilhosas, todas com ancoradouros e barcos de cair o queixo.
Para quem não tem conta lá, a Suíça é o lugar mais caro do mundo. Se não for, pelo menos dá a impressão. Atravessá-la rapidamente, o que não é difícil, em direção a Annecy, na França, é uma boa saída. Logo se chega a Chamonix, encantadora, aos pés do Mont Blanc, de mais de 4.800 metros de altura, onde mesmo no fim do verão se vê a neve pouco acima do nível da estrada. Há vários roteiros para quem gosta de caminhadas na montanha e também teleféricos, para os comodistas que não querem perder a paisagem. De Chamonix a Annecy, sempre por estradas locais, a viagem não demora duas horas.
Annecy fica à beira de um grande lago, com montanhas ao fundo, de onde centenas de jovens todos os dias saltam para voar de pára-glider. A vista lá de cima é para nunca mais se esquecer. Montanhas, castelos, florestas e o lago, cheio de velejadores, barcos a remo e lanchas puxando esqui.
A cidade parece cenário de filme. Ela cresceu, séculos e séculos atrás, à beira do lago e o centro é cortado por canais, onde fica difícil decidir para que lado olhar. As pontes, antigas, são enfeitadas com flores penduradas nos postes de ferro com luz amarelada. Durante o dia, os jovens que não estão na escola ficam pelas montanhas e no lago. Fim de tarde, começo da noite, a cidade é uma festa, com todos os cafés, restaurantes e sorveterias pelas ruas estreitas dos séculos 12 e 13 lotados.
Corantes naturais De Annecy a Colmar, onde começa o segundo trecho da aventura, o ideal é ir pela auto-estrada, onde a velocidade máxima é de 130 quilômetros por hora ou, em dias de chuva, 110 km/h. As auto-estradas são absolutamente perfeitas e ninguém anda abaixo dos 140 km/h. Nessa velocidade você será ultrapassado por senhores de mais de 60 anos, em silenciosos Jaguar, que passam feito tufão, dificilmente abaixo de 170 km/h.
Em Colmar, terra de Bartholdi, o escultor da estátua da liberdade, oferecida pelos franceses aos americanos como presente pela proclamação da independência, é fácil perceber que já se está perto da Alemanha, do outro lado do Rio Reno. Na Pequena Veneza, região da cidade cortada por canais muito rasos, construídos para abastecer o mercado central, estão as maison à colombage, construídas há quase 400 anos. São casas com estrutura de carvalho e paredes de barro, de camponeses que sob o domínio dos senhores feudais alemães (então prussianos) não tinham direito à propriedade da terra. Quando perdiam o emprego, desmontavam a casa, punham a estrutura numa carroça e saiam à procura de outro lugar para montá-la. Todas essas casas hoje estão restauradas e pintadas em cores fortes, com corantes naturais, como eram na época da construção.
Pela Route du Vin dAlsace, uma estradinha de pouco mais de 170 km, construída pelos romanos, viaja-se horas pelas colinas suaves tomadas pelos parreiras. Ao longe, vêem-se as pequenas cidades fortificadas, com torres cor-de-tijolo que se destacam no mar verde de parreiras que se ondula até o horizonte.
Vinhos alsacianos Riquewihr, que teve a sorte de escapar a todos os bombardeios da Segunda Guerra, é hoje exatamente igual ao que era na época do descobrimento do Brasil: uma cidadezinha toda de pedra, com muralhas construídas na Idade Média. A única diferença é que hoje o fosso sobre o qual desce a ponte levadiça está seco. A torre, que servia de prisão, onde os condenados eram jogados de uma altura de 25 metros pendurados pelas mãos atadas às costas, com uma pedra de 20 quilos nos pés, hoje é um museu. Lá se aprende que os condenados que sobreviviam à primeira queda eram jogados uma segunda vez, com uma pedra de 40 quilos. Nunca foi necessária uma terceira tentativa, até a Revolução Francesa, quando esse e outros castigos foram abolidos.
A torre de Riquewihr proporciona visões mais doces e amenas, também. De lá se vê até o horizonte as plantações dos sete tipos de uva (Pinot Blanc, Sylvaner, Muscat DAlsace, Riesling, Tokay Pinot Gris, Pinot Noir e Gewurztraminer) com que se produzem os vinhos alsacianos.


