DE INTÉRPRETE A CRIADOR
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segunda-feira, 24 de julho de 2000
Nelson Sato De Londrina 
Desde que deixou a Patife Band, Sidney Giovenazzi vem se dedicando exclusivamente à composição. Suas obras podem ser conferidas em cinco discos lançados de forma independente
O telefone tocou. Do outro lado da linha, o respeitável maestro Julio Medaglia rasga a seda sobre o que acabara de ouvir numa fita. O compositor Sidney Giovenazzi mal tem tempo de agradecer os elogios e é convidado para ser entrevistado no programa Contraponto, apresentado pelo interlocutor numa emissora de rádio paulistana.
O motivo do entusiasmo do maestro era o conjunto de peças para piano Liras da Ira, que Giovenazzi gravou esse ano. A entrevista foi ao ar no dia 25 de junho. Não seria a primeira vez que o músico teria seu trabalho reconhecido, mas o aval desta vez parecia reforçar sua auto-estima. Giovenazzi, 40 anos, nasceu em São Paulo, mas cresceu em Londrina.
Tocou contrabaixo durante cinco anos na Patife Band e se apresentou eventualmente com Arrigo Barnabé em trilhas de filmes e shows. Aliando influências de música erudita contemporânea ao popular, ele passou a se dedicar à composição em 1994, quando considerou encerrada sua evolução como instrumentista. Cumpri uma etapa conta ele.
Cheguei num ponto máximo de realização como intérprete. Passei a ambicionar a forma, a beleza, a criação. Saí da Patife e comecei a compor tornando-me um compositor profícuo. De lá para cá, gravou cinco CDs, tudo com produção independente. Além do erudito e já citado Liras da Ira, registrou o disco de canções Fita Demo e a trilogia Testamento, Testemunho e Texto que constituem a ópera pop Testamento.
Dois outros trabalhos, as trilhas das peças de teatro Édipo e Iluminuras, estão em fase de finalização. Fita Demo reúne músicas de todas as minhas fases salienta ele. Há canções eruditas, MPB, músicas só com violão e voz, um xote (que é uma ode ao anarquismo), parcerias com Bernardo Pellegrini, Maurício Arruda Mendonça e Rodrigo Garcia Lopes. É um CD calmo se comparado com os demais, que são mais energéticos.
Giovenazzi prefere a companhia de poetas a de letristas. Minha música é complexa, não tem rimas pobres, não tem banalidades. Eu sempre peço poemas para os meus parceiros, textos que o cara fez para o livro mesmo. Gosto de pegar a coisa tôsca para eu ir adaptando. Mas não faço cirurgias, procuro não arrumar brigas com poetas (e como eles gostam de brigar!). Tenho uma sintonia fina para encontrar o ponto de interpretação ideal para a execução dos poemas.
A ópera Testamento, seu projeto mais ambicioso, exigiu climas e formações musicais diferentes para cada um dos três discos. O primeiro CD da trilogia é seu único trabalho gravado em estúdio profissional os demais foram registrados com tecnologia doméstica. Nesta trilogia, lanço uma luz sobre este século. Minha leitura é que houve uma progressiva desumanização da humanidade, um atrofiamento dos sentidos explica.
Uma música incômoda, caótica, abre a trilogia. Os improvisos do jazz dão continuidade ao segundo volume. Fechando a ópera, o compositor lança mão de instrumentação sinfônica em peças que resgatam a estética romântica. Mediocracia, uma das faixas do primeiro volume, foi incluida no CD Rumos Musicais, que será lançado em agosto pelo Instituto Itaú Cultural.
Édipo Rei, por sua vez, vai trazer a trilha da peça homônima de Sófocles traduzida por Maurício Arruda Mendonça com participação nos coros de Ana Maria Biazon, Marcos Leonel e Daniel Loureiro. Já Iluminuras será a trilha do espetáculo adaptada por Maurício A. Mendonça e Rodrigo Garcia Lopes de sua respectiva tradução da obra de mesmo nome de Rimbaud. No disco, a cantora Elaine Godinho e o ator Adriano Garib fazem participações especiais.
Com tanta produção e projetos em curso, o compositor vira-se como pode para ganhar a vida tentando driblar o descaso das instâncias oficiais de cultura. Com a língua solta, dispara opiniões contundentes. Diz que a música erudita voltou-se para a Academia e se re-elitizou e a música popular virou um meio de geração de fortunas e palco de idolatria de imbecis.
Impaciente com os descaminhos das leis de incentivo fiscal aplicadas à cultura, ele planeja orientar a carreira para o exterior. Aqui não temos uma cultura artística diz ele. Temos uma cultura empresarial, na qual os poderes públicos se eximem da condução das ferramentas culturais transferindo toda a responsabilidade para os gerentes de marketing das grandes empresas. Se o Brasil não dá meios para produzir o trabalho de acordo com minhas exigências, vou procurar o mercado internacional.
Não que já esteja com uma passagem aérea e malas prontas nas mãos, mas está de olho nas possibilidades de intercâmbio da Internet, onde comercializa seus CDs e disponibiliza faixas para donwload no site www.studiovip.com.br/sidney.


