De Cuba e Portugal, os melhores
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 14 de agosto de 1998
Carlos Eduardo Lourenço Jorge Especial para a Folha2 
Se rigor e isenção forem aplicados na avaliação final deste 26º Festival de Gramado - Cinema Latino e Brasileiro, o veredito vai apontar um nível de qualidade cinematográfica apenas razoável, algumas vezes flertando com o medíocre. Entre os 14 longas, apenas Tropicanita, exemplar cubano, e O Rio do Ouro, de Portugal, atingiram um patamar de quase excelência. Os demais se assemelharam na linearidade, oscilando entre a simpatia e o desconsolo. No território dos curtas as coisas não foram diferentes. A mesmice anda assombrando os outrora inquietos e inventivos realizadores. As apostas mais óbvias são O Trabalho dos Homense Novembrada. E fazendo pano de fundo para o panorama pouco animador do festival, o caótico clima meteorológico, entre instável e demente, não contribuiu em nada para melhorar o astral este ano na serra.
Hoje é a noite de encerramento e premiação. Como pela primeira vez, desde a internacionalização da mostra competitiva, brasileiros e estrangeiros concorreram na mesma faixa, não está fora de cogitação uma ou outra surpresa, vale dizer, pequenos afagos patrióticos nos representantes da terra. A melhor pedida para logo mais, entretanto, fica por conta da mostra paralela PremiSres Gramado 98: a primeira exibição no Brasil de The Truman Show, de Peter Weir, aqui batizado de O Show da Vida. Nem bem foi lançado nos Estados Unidos e já é uma espécie de cult precoce e um dos candidatos ao Oscar, devendo dividir nominações com O Resgate do Soldado Ryan, de Spielberg.
Na reta final das duas últimas noites, o uruguaio Otario, produzido, dirigido e fotografado por Diego Arzuaga, é um desses exercícios de estilo em que a forma acaba tiranizando o conteúdo. Ambientado em Montevidéu dos anos 40, é a história de um detetive particular que se envolve numa trama complicada, onde não faltam todos os ingredientes do modelo policial noir americano. Mulheres fatais e misteriosas, suspeitíssimos donos de night-club, esposa às voltas com desaparecimento misterioso do marido, comparsas - afinal, é o reino absoluto da cumparsita - de péssima índole, segredos e enigmas à escolha, assassinatos, pistas falsas e verdadeiras. O clima é adequado. A fotografia, entre sépia e dourado crepuscular, é cem por cento funcional. Mas o roteiro não resulta bem amarrado, e no caso específico, equívocos na carpintaria dramática podem ser mais letais que uma bela dama de cabaré.
O quarto e último brasileiro apresentado na competição foi A Reunião dos Demônios, estréia no longa de A. S. Cecílio Neto. O dia-a-dia de travessuras e descobertas infantis de três garotos - Joaquim, Zego e Pelé - em modorrenta cidadezinha do interior de São Paulo, lá pelos anos 50. Os demônios do título são os próprios, que de tão travessos são assim chamados pelos pais e acabam acreditando que é possível fazer pedidos ao Diabo e obter (des) graças. O filme é simplezinho mas caiu na simpatia do público, que não poupou calorosa ovação, chegando mesmo a aplaudir em projeção aberta. Um exagero, sem dúvida, mas A Reunião dos Demônios oferece de fato alguns bons momentos, principalmente quando recria o cotidiano ingênuo dos garotos, enfatizando o humor de algumas situações realmentemte hilariantes. A idéia de Cecílio Neto, um veterano nas mostras de curta-metragem de Gramado, foi descomplicar ao máximo a narrativa, deixando os acontecimentos e as lições de vida fluirem em ritmo bem interiorano. Muito bem orquestrado o trio de atores-mirins, que mereciam ter vindo ao Festival.
O espanhol Perdita Durango, do controvertido e criativo Alex de La Iglesia, deixou a platéia atônita com sua proposta e seu ritmo nada ortodoxos. Já visto ano passado no Brasil em várias exibições através da tevê por assinatura (Canal TNT), o filme é um explosivo coquetel on the road, um frenético nonsense que reúne a supermulher do título, Perdita Durango (Rosie Perez) e um assassino carismático e ensandecido, Romeo Dolorosa (Javier Bardem). Sob as ordens de um chefão mafioso, a dupla vai do México a Las Vegas carregando uma carga de fetos. Inusitado, para dizer o mínimo. Alex de La Iglesia, aos 33 anos, é considerado um dos mais influentes jovens diretores espanhóis. Seu longa anterior, exibido fora de competição em Veneza-95, arrancou desconsertados elogios da crítica.
O mais complexo trabalho exibido na competição, o português O Rio do Ouro fechou a mostra ontem à noite. O filme é claramente uma obra de amor orquestrada pelo veterano Paulo Rocha, de 63 anos, um dos cineastas que fundaram o cinema novo em Portugal. A história é sobre um quarteto amoroso. Um drama de ciúme, amor, crime e mistério entre Antonio (Lima Duarte, na mira do Kikito) e Carolina (Isabel Ruth), casal de meia-idade, e a jovem Melita e o visionário cigano Zé do Ouro. O Rio do Ouro é um apaixonado projeto sobre amor, sexo e crime que Rocha começou a escrever há mais de 30 anos, tentando expressar as cores, sons e personagens de sua juventude. Ao contrário do que se viu durante a semana, o representante português não é obra para consumo fácil e apressado. Esta paixão funesta, este drama opaco sobre posse e ciúme são expressados em imagens que fundem o realismo do Jean Renoir (de quem Rocha foi assistente de direção) de Une Partie de Campagne, o fatum da tragédia grega e o canto da alma popular. Esta trágica balada fluvial, apresentada este ano em Cannes, é sem dúvida o mais alto momento de Cinema deste Festival de Gramado. Se o júri vai ou não transpor os limites que separam o simplesmente banal da majestosa exceção é uma incógnita.


