De corpo e alma no palco
DE CORPO E ALMA NO PALCO
Decepção com a literatura leva Marcelo Rubens Paiva a se envolver com o teatro
Zeca Corrêa Leite
Arquivo FolhaMarcelo Rubens Paiva: Agora estou conversando com atores, diretores, saindo à noite
O jornalista e escritor Marcelo Rubens Paiva está divorciado da literatura. Ele rompeu um casamento que tinha se iniciado em dezembro de 1982 com a publicação de Feliz Ano Velho e transformado de imediato num fenômeno editorial. Foram milhares de exemplares consumidos com avidez especialmente pela juventude. Continua sendo o título mais famoso do autor, que mais tarde viria a escrever cinco novos romances. O último foi Bala na Agulha.
Aos 39 anos de idade, o moço agora só quer saber de teatro. Estou totalmente voltado a isso, além do meu trabalho como jornalista da Folha de São Paulo, disse ele para a Folha2, na quarta-feira à noite, em Curitiba. O escritor esteve na cidade a convite do Colégio Positivo para um encontro com seus alunos.
O envolvimento com o teatro começou nos tempos em que Feliz Ano Velho foi adaptado ao palco, com direção de Paulo Betti. Sobre os novos projetos Marcelo conta:
- Ano passado escrevi duas peças, reescrevi outra que havia escrito nos anos 80, e neste ano estréia no Rio E Aí, Comeu?, que aborda um pouco essa ganância machista pela mulheres. A direção novamente será de Paulo Betti. Em São Paulo provavelmente estreará Pai Nosso. Enfim, agora estou conversando com atores, diretores, saindo à noite. Único problema disso tudo é que dorme-se muito tarde, acorda-se muito tarde, porque o pessoal de teatro começa a conversar às duas da manhã...
A carreira de romancista foi acabando aos poucos, mas a gota dágua aconteceu quando o escritor lançou Bala na Agulha e o público leitor manteve o mais completo desconhecimento sobre a obra. Depois de levar seis anos produzindo a obra, e considerá-la tão importante como Feliz Ano Velho, foi uma ducha de água fria ao sentir a indiferença.
A decepção veio a somar-se a outras inquietações. Fiquei muito assustado no dia que me dei conta que tenho seis romances escritos. É um exagero para um cara de 39 anos, contou. A produção desenfreada gerou todo um esforço que o autor passou a questionar. Não sei quantas palavras tive que buscar das minhas entranhas para descrever uma cena erótica, quantos personagens, quantos conflitos, quantos nomes, quantas histórias...
Todo esse esforço fez com que sentisse uma espécie de esgotamento com a linguagem do romance. Para ajudar somou-se a irritação com o que ele chama de amadorismo do mercado editorial brasileiro. Ou seja:
- A exploração que as editoras exercem sobre os escritores, a tal da autopromoção que promove escritores sem nenhum talento, enquanto os de grande talento não têm nenhum tipo de espaço, não são lidos, não são publicados. Editoras que conseguem através do charme do seu editor, do seu proprietário, interferir no gosto da leitura, em convites para feiras de livros...
Com essa realidade entrando em sua vida, Marcelo Rubens Paiva achou por bem dar um basta e trocou o livro pelo teatro. Aí vieram as descobertas. Só depois de ter escrito as peças foi que me dei conta de que os romances estão mais ligados à minha infância, meu passado. São histórias que vivi. As peças trazem coisas mais contemporâneas, conflitos que vivo nos dias de hoje.
Depois de apresentar Fanzine, na TV Cultura de São Paulo, Marcelo Rubens Paiva foi tomado por uma certeza - televisão, nunca mais. Na época em que o programa teve início até que era agradável estar ali com uma platéia formada por adolescentes. Quando saiu do ar, em 94, Paiva já tinha consigo a determinação de que aquele era realmente o fim.
Não tenho vocação para ser estrela de TV. Não tenho saco, nem paciência. A minha relação com a fama é uma coisa muito complicada, confessou. Ainda menino, aos 11 anos de idade, ganhou as páginas de jornais e revistas porque seu pai, o deputado Rubens Paiva, tinha desaparecido nas garras da repressão.
Com pouco mais de 20, lançou Feliz Ano Velho contando as agruras que o transformaram em deficiente físico. O Brasil disputava o garoto que despudoradamente contava sua vida. Me encheu o saco o assédio; mudo o número do telefone a cada quatro meses, disse para a Folha2. Não gosto de gente me ligando. Sou uma pessoa que preza a solidão, a intimidade.
A televisão transforma a vida de qualquer ser humano num furacão. Essa é a visão de Paiva. Ele começou a descobrir esse delírio ainda nos tempos do Fanzine, exatamente no dia em que caiu-lhe às mãos o último exemplar da revista Amiga. A capa trazia uma foto sua, sob o título: Drogas na TV.
A reportagem afirmava que Marcelo havia fumado maconha quando tinha 20 anos de idade. Esse tipo de abuso contra a minha cidadania, o desrespeito contra a individualidade de uma pessoa é uma coisa que não admito. Então já que não dá para ser de outro jeito, preferi largar.





