Cláudia Abreu garante que tem autonomia para dizer não à Globo. A certeza dessa independência artística fica evidente ao analisar a carreira da atriz, que este ano completa 26 anos de televisão e conta com inúmeros convites e apenas 13 novelas no currículo. Com uma lista de recusas que inclui desde minisséries de sucesso como ''Hilda Furacão'', de 1998, a novelas como ''América'', de 2005, e ''Beleza Pura'', de 2008, Cláudia está longe da tevê desde a fraca ''Três Irmãs'', exibida naquele mesmo ano. ''Não tenho nada contra a tevê. Mas tive outras prioridades ao longo da vida. Em alguns momentos estava mais para o cinema, outros para o teatro. Fora isso, hoje sou mãe de quatro filhos. Isso pesa na escolha dos meus trabalhos'', conta a mãe de Maria, Felipa, José Joaquim, e do pequeno Pedro Henrique, de apenas seis meses de idade. Com saudade dos estúdios, ela confessa que estava esperando ''o papel'' para voltar a gravar, e que viu esse potencial em Chayene, a espevitada rainha do eletroforró de ''Cheias de Charme''. ''Gostei da personagem de cara. Ela tem um frescor e estava precisando disso'', explica.
A carioca Cláudia Abreu teve o primeiro contato com as Artes Cênicas, com apenas 10 anos de idade, no Teatro Tablado - tradicional escola de teatro carioca, fundada por Maria Clara Machado. A tevê surgiu na vida da atriz cinco anos depois, ao passar em um teste na Globo. A partir daí, emendou novelas como ''Hipertensão'', de 1986, ''O Outro'', de 1987. ''A partir dos anos 90 eu fui escolhendo mais os projetos. Chega uma hora que se você começar a fazer tudo o que aparece, acaba se repetindo. Este nunca foi o meu objetivo'', ressalta.
Você está distante das novelas desde ''Três Irmãs'', de 2008. O que a fez acertar sua volta em ''Cheias de Charme''?

No geral, a linguagem divertida e o alto teor de novidade da trama me instigaram. Falar das relações entre empregadas e patroas não é nada novo. Mas, pelo contexto da novela, é ousado. Acho a ideia de variar um pouco a figura da protagonista muito válida. Hoje em dia, essa troca está muito evidente. Fora que a Chayene é daquelas personagens irrecusáveis. É totalmente diferente de qualquer coisa que eu tenha feito. É uma figura acima do tom, que corre por fora do naturalismo. Então, é possível fazer um bom trabalho de composição. Posso mostrar com ela outra forma de interpretar.

O forte apelo musical da personagem foi importante para aceitar o convite?

Eu queria sair da minha zona de conforto. Não queria nada óbvio. Ao fazer uma personagem que, além de interpretar, canta e eventualmente dança, tenho a sensação de que estou trabalhando de uma forma mais completa. É um exercício de versatilidade. Acho que precisava disso depois de ficar tanto tempo sem gravar e sem ensaiar um espetáculo.

Já pensou em construir uma carreira paralela de cantora?

Não... Nunca! Quem sou eu para querer uma coisa dessas? Não tenho talento e nem tempo (risos).

Mas gosta do que está vendo e ouvindo na novela?

Sou extremamente autocrítica. Acho que agora eu consigo assistir a uma cena minha de forma menos dolorosa. Mas me ouvir na tevê é novo e ainda não estou gostando. Essa personagem me deixa ainda mais atenta a todas as marcações e nuances durante a cena. Eu gosto de cantar, não sou uma Marisa Monte, mas me viro. A própria Chayene também não tem uma grande voz, então serve a minha mesmo (risos).

Depois de cantar no teatro e em filmes, como ''O Caminho das Nuvens'', de 2007, esta é a primeira vez que você canta na televisão. Procurou se preparar de alguma forma especial para a Chayene?

Faço aula de canto há muito tempo, mas estava parada há uns cinco anos. Retomei as lições com o preparador vocal Vitor Prochet de forma intensa. Querendo mesmo trabalhar a voz. Além disso, tenho ajuda do Danilo Tim, que auxilia nas cenas musicais da novela. Ele cuida muito bem de mim, do (Ricardo) Tozzi e das ''empreguetes''.

''Cheias de Charme'' tem três protagonistas. Mas, geralmente, a figura da vilã domina as telenovelas brasileiras. Acha que a Chayene pode roubar a cena no decorrer da trama?

Toda vilã tem seus encantos. Mas ''Cheias de Charme'' é o tipo de novela que tem espaço para todo mundo. Não escolhi fazer a Chayene pensando na possibilidade de tomar a novela. Aliás, o tamanho e a repercussão das minhas personagens nunca me importaram tanto. Não tenho essa vaidade, quero apenas que o papel seja bom, coerente com a trama. Se for bom, vai ter seu destaque.

A Chayene tem altas doses de humor. Acha que essa é a diferença básica entre ela e a Laura, de ''Celebridade'' (2003), sua vilã mais famosa?

O humor deixa a Chayene mais leve. Ela é uma vilã diferente. Ao contrário da Laura, a Chayene não é do tipo que fica se ocupando em fazer maldade, não é movida por uma vingança. Ela é egocêntrica, tem uma vaidade enorme. Então, quem estiver atrapalhando o caminho dela, ela meio que passa por cima. É daquele tipo de gente grosseira, que maltrata a empregada. É mais por aí a maldade dela. Por isso, acho que ela foge um pouco do perfil comum das vilãs.

Ao longo de sua carreira você já declinou de convites para diversos trabalhos. Inclusive, para protagonizar novelas como ''América'', de 2005, e ''Insensato Coração'', de 2011. Chegou a se arrepender de ter recusado algum personagem?

Às vezes um não vale mais que um sim. O tempo vai passando e você deixa algumas oportunidades importantes de lado em detrimento de outras. Não sou de ficar chorando pelo que não quis fazer. E para trabalhar em novelas, só gostando e estando realmente envolvida no processo. É uma delícia, ao mesmo tempo em que também é desgastante. Então é essencial eu querer muito trabalhar naquilo.

A novela ''Barriga de Aluguel'', um de seus primeiros trabalhos de destaque na tevê, está sendo reprisada pelo canal pago Viva. Chegou a ver alguma cena?

Passa muito tarde. Mas de vez em quando eu dou uma olhada. Fiz questão de ver o primeiro capítulo e foi engraçado. Faz muito tempo, né? Tenho um certo estranhamento ao me ver. Até hoje é assim. Melhorei muito, mas ainda sou preocupada. Vida de atriz tem muita exposição para você achar que está tudo fluindo bem. O rigor me ajudou a lidar com esses anos de carreira. É preciso ter cuidado ao aparecer na frente da tevê, invadir a casa das pessoas. Olhar para trás me dá uma satisfação enorme. É isso que sinto ao ver a novela da Glória (Perez).

Este ano você completa 26 anos de televisão. Em qual momento da carreira você começou a acreditar que estava no caminho certo?

Não sei se existe um momento. Carreira na tevê acontece de forma natural. Desde ''Hipertensão'' até agora, tive altos e baixos, personagens memoráveis e outros esquecíveis. Mas, sobretudo, acho que fui me aprimorando e ficando cada vez mais criteriosa e curiosa. Ter curiosidade é essencial para não ter que cair no lugar-comum dos mesmos tipos. Fui amadurecendo mesmo na frente das câmaras.

- Cheias de Charme - De segunda a sábado, às 19h20, na Globo.

mockup