De carona no design automobilístico
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 13 de fevereiro de 1997
Telma Elorza 
Mário CésarYoshiya Nakagawara Ferreira: meses de trabalho para desenvolver o temaA artista plástica Yoshiya Nakagawara Ferreira abre hoje, às 20 horas, a exposição de pintura Memória e Resgate: Design de Carros das Décadas de 20 e 50 inaugurando o Espaço Cultural Igapó, no showroom da Igapó Veículos, em Londrina. A mostra poderá ser visitada até o dia 31 de março.
A exposição reúne 15 obras em encáustica, acrílico, óleo e pastel sobre tela e madeira. Ao todo, Yoshiya apresenta 33 peças, sendo que há duas séries de 10 peças. Todas as obras têm como pano de fundo detalhes do design automobilístico, resultado de um trabalho de pesquisa que começou há três meses. Quando me convidaram para inaugurar o espaço, não impuseram um tema. Mas fui visitar o local e decidi que não queria apenas pendurar quadros. Achei que seria interessante fazer algo que se relacionasse com a indústria automobilística - conta.
A decisão foi reforçada quando ficou sabendo que o proprietário da empresa e idealizador do espaço cultural, Odilon Fuganti, é um apaixonado por carros. Ele não comercializa apenas os produtos, também preserva a história da empresa, guarda fotos, registros antigos e mantém um funcionário para restaurar carros antigos. Isto me motivou ainda mais - diz. Através deste funcionário, José Simoni, o seu Zico, Yoshiya foi introduzida no misterioso - para ela - e fascinante mundo dos automóveis. Antes de começar este trabalho, eu mal sabia distinguir um carro do outro. Nunca me interessei pelo assunto - lembra.
Mário César
Carro dos anos 20 serviu de modelo para a artista que desenvolveu o tema com sensibilidade
Presa aos detalhes Yoshiya ficou fascinada com a habilidade e conhecimentos de seu Zico que, aos 78 anos, já restaurou inteiramente vários carros para a empresa, inclusive um Ford datado de 1920 e um Chevrolet 1928. Visitei também dois grandes galpões onde são mantidas peças originais dos carros. E, com seu Zico, aprendi que, dentro do capô dos carros, há mais peças do que imaginava - brinca. Todas estas informações mexeram com a sensibilidade da artista que, além de visitar as oficinas, procurou estudar também a história e evolução dos automóveis, através de livros e CD-Roms.
O ponto de partida da exposição, porém, foram os carros fabricados na década de 20. Examinei nos detalhes, peça por peça, por dentro e por fora num desses automóveis antigos. Eu que nunca me interessei por carros, nunca parei para olhar atentamente nenhum modelo, tive minha atenção presa pelo design oval. A forma era usada em detalhes como a maçaneta, o painel, a lanterna, a logormarca - explica.
Mas que ninguém espere um trabalho retratando a evolução do automóvel. Yoshiya se preocupou muito mais com o sentido lúdico e estético dos carros do que com sua finalidade. As formas ovais, por exemplo, serviram de inspiração para uma das séries, cujo suporte foi recortado na forma e tamanho do painel do carro antigo. A partir daí, tudo se tornou numa brincadeira com a utilização de radiadores, por exemplo, como molduras para outras imagens.
Me basei nestas duas décadas da indústria automobilística porque foram as que mais me chamaram atenção. A de 20, por seu suportes ovalados - como o corpo humano e a própria natureza; e a de 50, por suas formas massudas, robustas, tão trabalhadas que dão uma impressão artesanal. As outras não me chamaram tanto a atenção, a não ser alguns modelos do final dos anos 70 e outros novos que, por sinal, redescobriram o ovalado das formas - conta.


