De carona com Kerouac
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quarta-feira, 27 de novembro de 2002
Jackeline Seglin<br> Reportagem Local 
A fase final da vida do escritor norte-americano Jack Kerouac (1922-1969) será contada nos palcos pelo ator londrinense Mário Bortolotto, fã incondicional do poeta beat que influenciou gerações. ''A peça é um modesto tributo a um dos caras que mudaram a minha vida. Devo muito a ele o que me tornei'', confessa Bortolotto.
''Kerouac'', monólogo escrito pelo dramaturgo Maurício Arruda Mendonça especialmente para Bortolotto, estréia hoje em Londrina, sob direção do paulistano Fauzi Arap. A apresentação será às 21 horas, no TOU Teatro Obrigatório Universal.
Essa peça é uma história antiga entre Bortolotto e Arruda Mendonça, que há oito anos ensaiaram iniciar o projeto. A idéia foi retomada um ano atrás. ''Foi superlegal porque é um autor que nós dois gostamos e por isso há uma sintonia. O Mário é o ator talhado para o papel'', comenta Arruda Mendonça. O dramaturgo, que também é poeta e diretor de teatro, reuniu um vasto material sobre Jack Kerouac, inclusive um volume com correspondências em inglês do escritor. ''Pra mim, foi um trabalho de pesquisa bacana. Juntei todo o material, busquei fatos inéditos, reli a obra e escrevi de janeiro a maio deste ano um texto que sintetiza a última fase da carreira (1957 a 1969) do escritor''.
Kerouac morreu sozinho e abandonado. Ignorado em vida após o repentino sucesso de ''On the Road'' (clássico da literatura beat), hoje o escritor tem sua obra revista e cultuada por milhares de leitores de todo o mundo.
A peça mostra o personagem já velho e no final de sua vida, batido pelo peso dos anos, pelo fracasso literário, a solidão, o álcool e as drogas. Amargurado, ele não é nem de longe o herói beat e com sede de vida do começo de carreira. É um sujeito angustiado que não soube administrar todo o sucesso que teve depois da publicação de ''On the Road''. ''Vejo o personagem como um herói trágico, mas sem uma conotação careta'', diz o dramaturgo.
Na montagem, que tem como cenário a sala da sombria casa de Kerouac, o personagem interpretado por Bortolotto acaba de voltar de sua última viagem de carona uma tentativa malsucedida de repetir as façanhas de sua juventude. Na madrugada do dia de Natal, ele tenta lembrar os fatos da viagem para escrever e vender logo um novo livro. ''A peça mostra um período específico da vida dele, dois anos antes de sua morte, aos 47 anos. Eu estou com 40, numa fase mais madura e com vontade de fazer esse Kerouac'', salienta Bortolotto, que faz o primeiro monólogo de sua carreira.
Em 50 minutos de espetáculo, Kerouac parece se empolgar com a história que está contando, mas logo cai em depressão. Ele alterna estados de ânimo que varia entre inocência, entusiasmo, paranóia e fúria alcoólica.
Mário Bortolotto antecipa que o público estará bem à vontade com a montagem. Para os que já conhecem Jack Kerouac, fica a expectativa. ''Quem não conhece nada do cara vai assistir à história de um escritor em uma fase decadente. O Fauzi (Arap) sabe fazer essa ponte com o espectador. É um espetáculo muito humano, um texto muito poético, sobre um personagem num momento difícil de sua vida''.
O diretor Fauzi Arap leu e gostou do texto, o que proporcionou uma nova parceria com Bortolotto, depois de ''Frida'' e ''Santidade''. ''Dirijo cerca de 80 atores na Mostra Cemitério e resolvi fazer um trabalho sozinho, que exigisse mais de mim enquanto ator'', comenta Bortolotto. ''A direção e a dramaturgia tomaram tamanha dimensão no meu trabalho que ocuparam o espaço do ator. Sinto falta de ter alguém me dirigindo. E como sou muito chato com diretores, procuro alguém que eu admire muito''.
Mário Bortolotto iniciou os ensaios de ''Kerouac'' há apenas um mês e meio e trouxe o espetáculo para ser mostrado pela primeira vez em Londrina. Com mais de 20 anos de carreira, Bortolotto é ganhador dos prêmios APCA pelo conjunto da obra e o Prêmio Shell de Melhor Autor pelo texto ''Nossa vida não vale um Chevrolet''. Foi indicado para o Prêmio Shell de Melhor Ator por sua atuação em ''Santidade'' e atualmente está indicado ao Shell de Melhor Autor com Hotel Lancaster.
SERVIÇO:
''Kerouac'', monólogo de Mário Bortolotto. Estréia: hoje, às 21 horas, no TOU Teatro Obrigatório Universal (Rua Rio Grande do Sul, 75 - em frente ao Hipermercado Condor), em Londrina. Prossegue até 1º de dezembro. Texto: Maurício Arruda Mendonça. Direção: Fauzi Arap. Iluminação: Mário Bortolotto e Fauzi Arap. Sonoplastia: Mário Bortolotto. Produção: Christine Vianna. Patrocínio: Prefeitura de Londrina/Secretaria Municipal da Cultura/Lei Municipal de Incentivo à Cultura. Apoio: Interstation, Hotel Coroados e Midiograf. Ingressos: R$ 6,00 e R$ 3,00.


