Conquistar audiência pela dramaturgia tem sido uma estratégia recorrente da Record, mesmo entre as idas e vindas de suas novelas – a emissora apostou em um horário, cresceu para o segundo e, ao planejar o terceiro, viu seu ibope diminuindo, fazendo-a optar por manter uma única faixa de folhetins. Mas, depois de conseguir bons índices com as minisséries bíblicas, agora o canal deve abrir espaço para, assim como a concorrente Globo, apostar em seriados. E essa é a maior motivação do elenco do especial "Nova Família Trapo", que será exibido no domingo (dia 1º). Trata-se de uma releitura do clássico "Família Trappo", que fez sucesso na própria emissora entre 1967 e 1971, na época idealizado por Jô Soares. "Temos os avanços que a modernidade nos trouxe, mas a essência do ao vivo e da plateia de teatro continua nessa versão. E essa foi a grande sacada da época. Estamos repetindo a receita do bolo e sem abrir o forno, para não solar", brinca o diretor Ignácio Coqueiro, que torce para emplacar o especial na grade de programação da Record em 2014.
São cerca de 50 minutos de programa, todo gravado no teatro de uma escola da Barra da Tijuca. Na história, Quintino, interpretado por Rafael Cortez, é o vencedor de "A Fazenda". Por causa do prêmio milionário que fatura no reality, é procurado por uma tia e um primo falidos e interesseiros, vividos por Patrycia Travassos e Daniel Erthal. O período de "vacas gordas", porém, dura pouco. Quintino investe toda a fortuna em ações da empresa de um famoso bilionário que, em seguida, despencam – algo parecido com Eike Batista. Com isso, ele fica sem nada e precisa, junto com a família e sua maior rival no programa, a Mulher Lasanha, papel de Bárbara Borges, que ficou com o segundo lugar do reality, tentar se reeguer. "O que mais me orgulha é o fato de se tratar de um marco não só da Record, mas da televisão nacional. E com uma proposta de trama nova. Se fosse para imitar o (Ronald) Golias, eu jamais teria aceitado", diz Cortez, citando o ator que encarnou o protagonista Carlos Bronco Dinossauro na versão original.
No ensaio, que começou com as próprias roupas dos atores e terminou com o elenco todo caracterizado, a preocupação com as marcações foi intensa. Mas como o programa tem um único cenário, o da sala de Quintino, ficou mais fácil gravar a posição de cada um. E um detalhe também ajudou na hora de ensaiar e decorar as falas: toda a movimentação se deu de maneira ágil, mas em sequências que não eram curtas. "Só não sabemos como vai ser quando tivermos a plateia aqui. É diferente, as pessoas se manifestam e você automaticamente reage a isso. Na hora é que a gente vai ter essa noção", avalia Patrycia.
A situação mais inusitada é a de Cacau Melo. A atriz interpreta uma prima de Quintino que, dedicada ao extremo às artes cênicas, trabalha encarnando uma galinha em um espetáculo infantil. E passa o especial quase inteiro nesse traje. Um figurino que deixa apenas seu rosto à mostra, mas que é bem menos incômodo do que Cacau imaginava. "Pensei que fosse ser mais pesado e quente. Mas até que está bem tranquilo", explica ela que, curiosamente, se destaca no meio do elenco por uma particularidade: é a única integrante que já participou de uma edição do reality "A Fazenda" e conquistou seu primeiro papel na tevê, a Rose de "América", no concurso "A Nova das 8", do "Caldeirão do Huck", que era produzido em formato de reality show. "Já dei várias dicas. Inclusive, cuidei das galinhas em ‘A Fazenda’ durante muito tempo! Acabou servindo de laboratório", brinca Cacau, que chegou a ensaiar uma sequência em que sua personagem se "transformava" em uma galinha.
Uma das preocupações principais do diretor foi frisar que os atores não podem se perder da direção no dia de gravar em função do público. "Temos câmaras aqui, vocês precisam ter atenção com elas. Olhar para a plateia vai ser uma tentação, mas não dá para cair nela na maior parte das vezes", avisa Ignácio.
Mas o primeiro ensaio no teatro já serviu como uma espécie de preparação. Apesar de ter quase todas as cadeiras da plateia vazia, uma presença em especial mexeu com a atenção do elenco: a autora Letícia Dornelles, que divide com Bosco Brasil o texto do programa. "Tem de rolar um respeito e, de vez em quando, dar uma olhadinha para ver se está agradando", fala Rafael Cortez.

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