Ficou chique estampar na camiseta a declaração ''I love Burt Bacharach''. Antes, havia quem cantava os hits do compositor no banheiro para depois com a maior cara de pau depreciá-lo publicamente taxando-o de cafona, brega e comercial.
Hoje, o velho Burt é reverenciado pelos tradicionalistas como um clássico da canção popular americana, digno de figurar na mesma foto com os irmãos Gershwin e Irving Berlin. O culto se estende à comunidade pop, na qual bandas como Oasis, Sonic Youth, Manic Streer Preachers, Stereolab e Pizicato Five já proclamaram sua idolatria.
No Brasil, o grupo Pato Fu também não esconde a preferência. Todo o arranjo de metais de ''Nada Pra Mim'', uma das quatro músicas inéditas do recém-lançado CD ''MTV Ao Vivo'', foi decalcado de Bacharach. Mas quem ainda resiste aos apelos do mestre da easy listening, tem mais uma chance para se arrepender do acervo de pérolas que deixou de ouvir até agora.
Acaba de chegar às lojas o CD ''Motown salutes Bacharach'' (Universal), reunindo a nata da soul music em interpretações memoráveis de canções do autor de ''Raindrops Keep Falling On My Head''. Esta música, por exemplo, consta na coletânea na voz dos Four Tops. Motown, convém recapitular, é a mais importante gravadora independente da história da música pop.
Foi fundada em Detroit, em 1959, por Berry Gordy. Foi uma fábrica de hits. Nos anos 60, cada compacto que lançava atingia o topo das paradas. Voltada exclusivamente para artistas negros, tinha seus padrões de produção aperfeiçoando uma fórmula de estúdio implacável com vocais polidos e metais suaves.
Diferente do estilo cru da concorrente Stax, suas composições de alto teor sentimental eram mais palatáveis ao consumo de massa. A maioria das músicas trazia as assinaturas dos hit-makers Brian Holland, Lamont Dozier e Edward Holland. Mas Burt Bacharach também emprestou muitas criações ao elenco da gravadora, já que suas canções fáceis de ouvir e difíceis de esquecer encaixavam-se como uma luva ao soul soft vigente.
É o que mostra o CD, um apanhado do que ele produziu de 1966 a 1970 (a exceção é a faixa ''This Empty Place'', gravada por Stephanie Mills em 1975). O repertório é quase irretocável, sendo difícil destacar uma faixa ou outra, embora ''One Less Bell To Answer'', ''The Look of Love'' (ambas interpretadas por Gladys Knight & The Pips) e ''Walk On By'' (com Smokey Robinson & The Miracles) intensifiquem a fruição do disco.
A lista de clássicos inclui ''Close To You'' (com Diana Ross), ''I Say A Little Prayer'', ''(There's) Always Something There To Remind Me'' e ''Anyone Who Had a Heart'' (Martha Reeves & The Vandellas) e ''I Just Don't Know What To Do With Myself'' (Smokey Robinson & The Miracles). Traz ainda ''Message to Michael'' (The Marvelettes), ''Alfie'' e ''A House Is Not a Home'' (Stevie Wonder), ''This Guy's In Love With You'' (Jimmy Ruffin), ''Any Day Now'' (Eddie Kendricks), ''Let The Music Play'' (Diana Ross & The Supremes) e ''Do You Know The Way To San José?'' (The Supremes & The Temptations).
Não faltou ''What The World Needs Now Is Love'', a favorita do autor, cantada por Tom Clay. Amigos, estamos falando aqui de canções imortais e imortalizadas. Para fãs de soul music e Burt Bacharach, é o presente antecipado de Natal.

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