De bom, só a voz
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 20 de novembro de 1996
Antônio Mariano Júnior 
O novo disco de Fafá de Belém pode ser resumido numa só palavra: mesmice. Chama-se Pássaro Sonhador (Sony) e sai do forno na condição de disco de ouro (mais de cem mil cópias vendidas) graças à música Vermelho (aliás belíssima, diga-se de passagem), referência a uma das agremiações do Boi do Parintins, manifestação folclórica do Boi Bumbá da Amazônia. É a primeira faixa do disco. E já está tocando até em todas as rádios do Brasil.
Há de interessante ainda um pout-pourri de carimbó (Este Pranto É meu, Carinho Nativo, Este Rio É Minha Rua). O restante são baladas que falam de desamor, de sofrimento em nome do amor. Há música de Zezé di Camargo, versões de baladas italianas, Nando Cordel e até mesmo de Fafá. Há também parcerias até então inimagináveis, como José Augusto e Dudu Falcão (um compositor sofisticado que cedeu algumas de suas maravilhas principalmente para Nana Caymmi). Ao todo, 12 faixas.
Michael Sullivan é quem assina a produção de quase todas as faixas. Mazzola, outro midas fonográfico, assina a faixa-título e o pout pourri. Já Luiz Carlos Reis produziu Vermelho que, no CD, aparece também em versão Bonus Track com a participação de David Assayag, uma espécie de puxador da agremiação Vermelho, também conhecido como Garantido.
Pássaro Sonhador é um disco popularesco feito para gente com ouvidos nada exigentes. Seria mais um se a proprietária não fosse Fafá de Belém, uma cantora com recursos vocais impressionantes. Ela é uma das grandes intérpretes que o Brasil tem atualmente.
No seu novo trabalho - o 18º de seu carreira - Fafá não apresenta nada de novo até mesmo na sonoridade. Os arranjos ainda abusam de tecladinhos e batidinhas eletrônicas manjadas, manjadas. Está em desuso há um tempão. Fafá precisa urgentemente rever a sonoridade de seus discos sem que, no entanto, se altere a linha de trabalho popular que tanta questão faz de manter.
Música de verão Se Fafá deu para cantar só músicas frágeis, o problema é dela. Entretanto, às vezes, tem-se a impressão de que ela não está muito à vontade nessa sua fase pós-brega. É até compreensível já que ela vem de uma linhagem nobre da MPB. Acontece que, em meados da década de 80, resolveu revestir sua musicalidade com a mais fina seda proveniente da cafonália brasileira. Portanto, a cobrança é inevitável.
Outros artistas populares - como Amado Batista - já se tocaram que é preciso haver reciclagem musical. E de tempos em tempos. Até os bolerões de Roberta Miranda, atualmente, soam simpáticos. Não se pode, entretanto, torcer completamente o nariz para a ótima intérprete que Fafá ainda é.
Enfim, Fafá vai novamente sentir o gosto do sucesso por causa de Vermelho, que tem tudo para se transformar em hit de verão. A pergunta é: por quantos verões Fafá vai continuar na memória do público?


