DE BISPO DO ROSARIO
A reportagem a seguir pode ser considerada uma viagem por um labirinto. Fazem parte deste caminho, informações desencontradas, histórias que se sobrepõem a outras, lugares distantes, o sistema de saúde mental, celas de manicômio e um personagem central, que durante 50 anos viveu em uma cela do hospício de loucos chamado Colônia Juliano Moreira, hoje transformada em hospital psiquiátrico. Devido a projeção e relevância que o trabalho que realizava ganhou (ver texto nesta página), o próprio lugar onde a sua obra foi criada acabou alcançando visibilidade, despertando o interesse das pessoas sobre o tratamento dispensado aos pacientes, ao destino do patrimônio histórico da Colônia em Jacarepaguá e, no caso da presente matéria, em relação à conservação e manutenção do acervo do fenômeno chamado Arthur Bispo do Rosario.
A Colônia, fundada em 1924, abriga o atual Instituto Municipal de Assistência à Saúde Juliano Moreira (Imasjm) e o Museu Bispo do Rosario (MBR) entre outros patrimônios históricos. O local já foi morada de índios, fazenda colonial onde escravos trabalhavam na plantação de café, hospício de loucos que demoravam dias para chegar do Rio de Janeiro até ali e agora tem vários de seus pavilhões transformados em cortiços, áreas invadidas pela comunidade da periferia, casas onde moram antigos funcionários e internos e até um clube recreativo sem nenhuma ligação com a instituição. Uma vila, de fato, com linhas regulares de ônibus, lotações e problemas sociais que convivem com os cerca de 900 doentes, cuja permanência de internação chega a 35 anos. Isto tudo em uma área que ultrapassa em tamanho o bairro de Copacabana, ladeada de floresta, montanhas e uma vista esplendorosa para o mar. Só um lugar destes para explicar a aparição de uma figura como o personagem central que deu origem a esta matéria.
O fato é que 20 anos depois da obra de Arthur Bispo do Rosario ter vindo a público, muita coisa ainda está apenas nas boas intenções das pessoas que cuidam do seu acervo e tanto suas frágeis peças, quanto o núcleo histórico da Colônia - que incluí as ruínas da casa grande, da senzala, da olaria e os pavilhões do núcleo Rodrigues Caldas - não podem esperar mais para que saiam do papel, ou, pior, que comecem a chegar ao papel e se tornem projetos.
Para Patrícia Burrowes, autora do livro O Universo Segundo Arthur Bispo do Rosario, editado pela Fundação Getúlio Vargas, o problema básico parece ser uma briga entre a pasta da saúde e a da cultura pelo controle do patrimônio. Ela exemplifica perguntando se, entre construir um posto de saúde para a comunidade ou restaurar um prédio daqueles, qual seria a opção natural dos dirigentes que controlam a Colônia? Ela mesma responde que, no fim, nem um nem outro são realizados. Suas perguntas quanto ao destino das obras do Bispo, são as mesmas que eu me fazia em 96, época de minha pesquisa de mestrado e que deu origem ao livro, disse.
Já para a museóloga do MBR, Regina Garcia, o quadro é otimista. Trabalhando há 2 anos na instituição, diz que todos da equipe vestiram a camisa para dinamizar o espaço cultural da Colônia, fazendo o serviço com amor, em vários projetos que incluem o acervo do Bispo, de outros internos, das oficinas de arte, do museu do hospital psiquiátrico e do restauro dos prédios. Sobre a liberação de recursos para todos estes projetos, diz que estão batalhando para conseguir patrocinadores, embora ainda faltem vários estudos preliminares a serem feitos para o início do trabalho, uma vez que o MBR e a sala da reserva técnica onde há outras obras além das conhecidas do público foram adaptadas do espaço do pavilhão administrativo do Imasjm. Afirma também que a Mostra do Redescobrimento ajudou a divulgar o acervo do Bispo: Com abertura, a gente tem mais condição de encontrar parceiros para os nossos projetos. Isto, não é o que pensa o ex-diretor e atual consultor do MBR, o Historiador da Arte, Waldir Barreto. Até sair do Museu, em meados de 2000, firmei posição severamente crítica à participação compulsória de Bispo na Mostra do Redescobrimento, sem qualquer ganho material para o museu que, obviamente, precisa de muito mais do que os tantos curadores e equipes que lucraram e ainda lucram com este evento superorçado. Bispo foi colocado para vender o módulo Imagens do Inconsciente para o exterior. Barreto é categórico: Por conta da antiga e total falta de investimento do Ministério da Saúde e atual da Secretaria Municipal de Saúde, a obra de Bispo se autofinanciou até agora, através de exposições. Isto está errado. Para ele, a saída seria a criação de uma entidade privada de apoio ao museu. Com uma associação privada, livre dos nós das administrações públicas, podemos encaminhar e executar todo e qualquer projeto, captar verbas, contratar profissionais, serviços, equipamentos, ele argumenta.
O atual diretor do MBR, o psiquiatra Ricardo Aquino, pretende transformar a Colônia em um pólo cultural da zona oeste do Rio de Janeiro: Queremos preservar a memória, a história e os costumes de uma época. A direção do Imasjm fez um convênio com a faculdade de arquitetura do Rio e temos um projeto de restauração dos prédios visando uma nova destinação (...) Sonho com alguma grande empresa assumindo o restauro das obras do Bispo e de preservação dos prédios. Sobre o material do acervo, Aquino explica: Temos uma vertente que é o risco da mobilização do acervo por intermédio do circuito de exposições. O público conhece uma pequena parte do acervo . As obras do Bispo são feitas com material de extrema fragilidade: plástico, papel, pano, linha, etc. Nos preocupa a transporte das obras e queremos priorizar o aspecto da preservação.
Para uma obra criada para ser mostrada no dia de sua passagem, como a de Bispo do Rosario, sonhos e esperanças é o que não faltam, uma vez que milagre mesmo é que os trabalhos não tenham sido jogados como lixo e se perdido devido à má conservação, apesar de terem sido criados em um ambiente que foi um dia um depósito de gente e que ainda hoje convive em meio ao caos e à turbulência gerada entre a vila e a vida dos moradores da Colônia e as ruínas arquitetônicas, que, apesar de tombadas pelo Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, continuam à mercê do tempo.Internado na Colônia Juliano Moreira, em Jacarepagua, Arthur Bispo do Rosario criou centenas de obras. Parte deste acervo está no próprio local num museu que leva seu nome, mas muita coisa está mal conservada e sob o risco de se perder para sempre
Rubens Pileggi Sá
Do Rio de Janeiro
Especial para Folha 2





