De Berlim para Manaus
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 23 de dezembro de 1998
Zeca Corrêa Leite 
A Orquestra Filarmônica de Berlim é a melhor do mundo, mas não fica entronizada na fama. Seus músicos aglutinam-se em diversas formações, e um deles é seu Quinteto de Sopros que acaba de lançar mais um CD, o sétimo da carreira. O mais interessante nesta história é que ele traz sete composições do maestro Júlio Medaglia.
A formalidade européia curvou-se à alegria solar brasileira, com a inclusão de choro, seresta, valsa, baião, frevo e tango. Ainda assim os músicos não perdem a pose. Eles tocam chorinho com a seriedade de quem tocou com Karajan a vida inteira, diverte-se o compositor.
A história do disco tem início em 1991, quando Medaglia regeu o quinteto executando a Sinfonia Concertante de Mozart. Numa conversa informal com os músicos veio à baila a composição nacional. Um dia eles iriam para a minha casa e me ocorreu escrever um chorinho para tocarem. Aquilo que poderia ser mero passatempo acabou se transformando em coisa séria.
O quinteto não só adorou a música como levou-a aos concertos, para ser executada no bis. As platéias ficavam fascinadas com aquele som que nunca tinham ouvido. O sucesso foi tão grande que os músicos encomendaram outras peças. Acabou se transformando numa suíte completa, apresentada posteriormente em turnês.
Uma delas aconteceu nos Estados Unidos, levando o crítico do Los Angeles Times a comentar que o ponto culminante era a suíte, que desafiava a técnica dos músicos em sua capacidade de tocar em conjunto. Medaglia acha graça: Imagine eu desafiando os melhores músicos do mundo com chorinho... O tango foi incluído na lista propositadamente - em 99 o conjunto estende seu passeio pela América Latina. Outros pedidos chegaram a Julio Medaglia, vindos de outros grupos da Filarmônica.
O encontro dos professores eruditos com a música popular cria um novo produto. A linguagem é popular mas a tecnologia de execução é erudita. Você tem uma qualidade de instrumentalidade altíssima, a melhor que existe no mundo, comenta o maestro.
Autor do arranjo original de Tropicália, de Caetano Veloso, que gerou o Movimento Tropicalista, Medaglia foi daqueles que sempre rompeu barreiras entre o erudito e o popular. Deixou sem fala os conservadores colocando no palco, para cantar com orquestra sinfônica o cantor Roberto Carlos, no auge da Jovem Guarda.
Hoje, que cantor popular levaria como solista? Está difícil, responde cuidadoso. As minhas tentativas sempre foram meio desastradas, porque o cantor popular no Brasil não tem tradição de trabalho intenso, como tem o músico erudito.
Ele conta que há pouco tempo levou uma grande cantora para se apresentar com a Orquestra Amazonas Filarmônica. Arrependeu-se. Ela chegou mal preparada, não entendeu bem a coisa. Ainda assim, se tivesse que escolher alguém, o convite iria recair sobre o maior bandolinista do mundo: Armandinho, do Trio Elétrico.
A participação ativa na vida musical faz de Medaglia uma testemunha da história recente de nossa ascensão e declínio nas últimas décadas. Assim como houve uma época de ouro, nos idos do rádio, também nos fugazes e primordiais momentos da TV Record a música de qualidade ganhou as ruas e as paradas de sucesso.
Por que motivo estamos no caos? Por questões puramente mercadológicas, na opinião do maestro. O enorme crescimento da indústria cultural expandiu o consumo da música e, para atender a demanda, os grandes monopólios que comandam o setor afastaram a qualidade para trabalhar com a massificação.
Produção cultural não é parafuso. Então, para não parar a máquina, foi-se simplificando o repertório, compara. Mas não é só no Brasil que isso está ocorrendo. O mundo inteiro está mergulhado numa mesmice de baixo nível. A diferença daqui para com outros países é a riqueza popular somente encontrada aqui.
Para os insatisfeitos, Julio Medaglia acena com uma visão otimista. Quando esse produto cafajeste começar a cansar as pessoas, fatalmente haverá uma mudança para melhor. Aqueles que hoje estão trabalhando na periferia, na marginalidade, aos poucos serão requisitados. Acredito que essa máquina vai ter que solicitar produto cultural melhor.
O cenário está nebuloso no campo popular. No erudito, Medaglia tem grandes alegrias. Ele está à frente, em Manaus, da melhor orquestra brasileira da atualidade. A Amazonas Filarmônica caminha para seu primeiro ano de criação, e é um dos empreendimentos artísticos mais importantes ocorridos ultimamente no País.
Para formá-la o maestro pinçou músicos escolhidos em diversos países. A sofisticação dos naipes só pode ser ouvida pela platéia que frequenta o Teatro Amazonas, em Manaus. E aqueles que não perderam a oportunidade de ver a orquestra em suas excursões por São Paulo e Rio de Janeiro.
O grande público terá oportunidade de conhecê-la em breve, quando chegar ao mercado o seu primeiro disco. O repertório traz Mozart, Vivaldi, Sibelius, Santoro, Piazzola. De quebra, três peças têm a participação do Coral Amazonas.


