De bem com o relógio
PUBLICAÇÃO
domingo, 11 de novembro de 2012
Geraldo Bessa <br> <br> TV Press 
Muitos artistas de tevê enxergam a passagem do tempo de forma cruel. Afinal, nessa profissão, imagem e beleza estão na ordem do dia. Claudia Raia é voz dissonante. Ela acredita que a maturidade não só lhe deu experiência e reconhecimento como atriz, como se sente mais à vontade com seu corpo. ''Acho que estou muito melhor agora do que quando tinha 20 anos. Esteticamente, hoje me cuido mais e tenho pleno equilíbrio do meu corpo. Como atriz, o conteúdo dos minhas personagens tornaram-se muito mais instigantes'', valoriza a intérprete da Lívia, de ''Salve Jorge''.
Além de personagens mais complexos, aos 45 anos Claudia tornou-se uma das atrizes mais disputadas pelo autores da Globo. Só este ano, seu nome foi escalado para os remakes de ''Gabriela'' e ''Guerra dos Sexos''. No entanto, por questões de tempo e pelo peso da vilã Lívia - escrita especialmente para a atriz por Glória Perez -, Claudia acabou acertando sua participação na atual trama das nove. ''Vi na Lívia a possibilidade de fazer um personagem marcante. É uma vilã ambígua e cheia de nuances, de uma maldade genuína. Não é todo dia que isso aparece'', valoriza a atriz, natural de Campinas, interior paulista.
Em ''Salve Jorge'', sua personagem é a espinha dorsal de uma rede de tráfico de mulheres. Como você lidou com o peso deste tema durante a preparação para a novela?
A Lívia me deu e ainda me dá muito trabalho. Mas desde o começo eu sabia que não seria um trabalho fácil, de ir para o Projac (Central Globo de Produção) gravar e pronto. Por se tratar de um problema real, é um tema muito forte, que mexe comigo. Chorei muito durante o processo de preparação. E o mais interessante é que a Lívia é o tipo de personagem impesquisável.
Como assim?
Conversei com os delegados da Polícia Federal que participaram do workshop com o elenco da novela, com mulheres que foram traficadas e conseguiram superar essa condição. E ainda com mães de meninas que não sobreviveram. No entanto, é impossível traçar o perfil das pessoas que comandam toda a operação criminosa. Eu perguntava: ''mas como são essas pessoas que lideram o tráfico?''. E ninguém sabia como elas eram, como se portavam. Apenas que são totalmente blindadas e que não aparecem. É um mercado com pessoas muito poderosas envolvidas.
Na novela, Lívia é mostrada como uma pessoa pública, acima de qualquer suspeita. Essa licença poética dramatúrgica facilitou sua interpretação?
Não acho que tenha ficado mais fácil. É que para funcionar a história da Glória, minha personagem não poderia ficar tão escondida. Era preciso ação. Eu gostei desta faceta pública da personagem porque levanta a questão de que esses criminosos podem ser qualquer um, estar em qualquer lugar. Ela é simpática, elengantíssima, uma ex-modelo que faz gestão de carreira de aspirantes à passarela, não dá qualquer sinal de falta de caráter. É quase um caso de dupla personalidade (risos), o que torna a personagem bem complexa.
Foi esse grau de complexidade que fez você aceitar o convite para ''Salve Jorge''?
A Lívia é um grande papel, do tipo que me dá a oportunidade de mostrar um trabalho forte e diferente de outras vilãs que eu já fiz e a que assisti na tevê.
Por quê?
Ela é simplesmente má. Não há indícios de um passado triste, opressão familiar, trabalho forçado e muito menos assédio ou abuso sexual na trajetória da personagem. Eu conversei muito com a Glória para saber se ela tinha algum grau de psicopatia ou algo do tipo, mas a abordagem da Lívia também não é por aí. Achei esse caminho do mal genuíno um acerto, seria uma repetição se as vilanias dela fossem justificadas por alguma doença ou desequílibrio mental. Algumas pessoas nascem ruins e esse é o caso dessa dela.
Sem muitas referências e justificativas, você sente alguma dificuldade para deixar a Lívia crível para o público?
A personagem é muito bem escrita e a ambiguidade dela me ajuda a deixá-la verossímil. De uma maldade natural e revestida de bondade, Lívia realmente acredita que está fazendo um bem para as meninas que caem no seu golpe. Enxerga a prostituição e o trabalho escravo como uma oportunidade das traficadas conhecerem outra cultura, outros mundos. Além disso, ela é capaz de boas ações. Assim como qualquer pessoa boa ou ruim. É claro que existe uma questão de índole, mas dependendo da situação, as pessoas podem passear pelo bem e pelo mal. Isso humaniza a personagem.
Você é mais conhecida pelas personagens cômicas e voluptuosas de novelas como ''Sassaricando'' e ''Deus Nos Acuda''. Interpretar vilãs de forma bissexta, como as de ''Torre de Babel'', ''Sete Pecados'' e ''Salve Jorge'', é uma forma de você não se repetir?
Não é legal ser vista como uma atriz de apenas uma personagem. Eu tento diversificar bastante, mas não enxergo meus personagens como vilãs ou mocinhas. O que me interessa são bons papéis. Sei que o público me identifica mais como uma atriz de comédia. Eu tenho mesmo uma aptidão para as risadas, para tipos extrovertidos. Mas adoro exercitar minha veia dramática.
Essa referência do público a incomoda?
De maneira alguma! Até porque eu tenho o maior orgulho de ter feito mulheres fortes como a Maria Escandalosa e a Tancinha. A Tancinha, inclusive, foi uma grande virada na minha carreira. Mostrou minha porção cômica. Algo que foi desenvolvido nos anos que fiz ''TV Pirata''. Foram trabalhos que me ligaram à comédia e que me marcaram muito. Só quero que o público aceite também meus momentos mais dramáticos.
''Cabaret'' segue em cartaz até fevereiro, em São Paulo, e você grava a novela, no Rio de Janeiro, até maio. Como está sendo conciliar os dois trabalhos?
É uma loucura! Geralmente, não gosto de fazer as duas coisas ao mesmo tempo. Até porque gosto e preciso de tempo para me dedicar aos meus filhos, à minha vida social. Antes de dizer que faria ''Salve Jorge'', conversei com a minha família sobre o ritmo alucinante de trabalho que eu teria de enfrentar. Com a estreia da novela, tive de parar de fazer uma noite de apresentações do espetáculo. Atualmente, gravo no Rio de segunda a quinta, e me apresento em São Paulo de sexta a domingo. E ainda tenho que malhar, fazer aula de canto, decorar texto, ensaiar... Por sorte, são dois projetos que valem o esforço.


