De alma espanhola
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 16 de julho de 1998
Isabel Garcia-Zarza Agência Estado/Reuters 
Quando Ernest Hemingway cometeu suicídio em sua casa de Idaho, no dia 2 de julho de 1961, ele deixou passagens aéreas para a Espanha e entradas para a corrida anual de touros de Pamplona em sua mesa.
Apenas a morte poderia fazer com que o conhecido autor americano perdesse seu passatempo favorito: a orgia de nove dias de corridas de touros e as festas que acontecem todos os anos no final de julho nesta cidade ao norte da Espanha.
Ele nos disse que viria e ficamos esperando por ele, que acabou nunca vindo, disse o escritor espanhol José Luís Castillo-Puche, um amigo íntimo de Hemingway.
Por muitos anos o Nobel de literatura compareceu fielmente às festas de San Fermin e até chegou a participar das loucas correrias em frente aos touros. Ele gostava do êxtase coletivo de uma cidade enloquecida com a festa, disse Castillo-Puche, se referindo a Hemingway como Ernesto.
Em vários de seus livros, incluindo O Sol Também se Levanta, Hemingway trouxe a Espanha e suas festas para o palco mundial. Ele é visto como um dos maiores responsáveis pelos milhares de estrangeiros que invadem as festas de San Fermin todos os anos.
Sem dúvida ele foi a pessoa que teve a maior influência em fazer as festas de Pamplona tão famosas, disse o toureiro Antônio Ordonez, outro dos amigos de Hemingway.
A relação do escritor com a Espanha está sendo lembrada em Madri com uma exibição que presta homenagem a Hemingway, na frente do centenário de seu aniversário, no dia 21 de julho. Apesar de Hemingway ter na verdade nascido em 1899, os organizadores da exibição estão reconhecendo o falso ano de 1898 que ele colocou em seu certificado de nascimento para poder se juntar ao exército.
A exposição traz uma visão íntima de Hemingway e tenta mostrar sua fascinação pela Espanha enquanto ele desenvolvia sua reputação de bêbado e mulherengo.
É verdade que ele era um alcoólatra, mas geralmente estava mais bêbado de solidão do que de álcool. Ele era um gênio perseguido pela fraqueza, disse Castillo-Puche.
O autor de O Sol Também se Levanta e de O Velho e o Mar acreditava que havia encontrado nas touradas espanholas um reflexo da existência humana.
O homem que era apaixonado pelo risco, que ele procurou na guerra, em mergulhos no fundo do mar e em safáris na África, admirava as touradas devido à sua luta diária contra a morte.
Ninguém vive a vida ao seu máximo, exceto os toureiros, disse um dos personagens em O Sol Também se Levanta, considerada uma das histórias das experiências pessoais de Hemingway.
Hemingway apaixonadamente seguia a temporada de touradas na Espanha, mesmo quando estava no exterior. Uma carta escrita do Quênia para um amigo de Pamplona, Juanito Quintana, mostra seu profundo interesse.
É possível para você me mandar as seguintes matérias da revista O Anel do Touro sobre as touradas do norte e o retorno do toureiro Domingo Ortega?, escreveu Hemingway na carta que faz parte da exposição de Madri. Eu sinto falta das notícias do que acontece em nosso planeta dos touros.
A exibição também mostra várias fotografias de Hemingway, algumas delas tiradas de diferentes frentes da Guerra Civil Espanhola, que ele descreve em Por Quem os Sinos Dobram.
Hemingway sofreu tanto com a derrota dos republicanos pelas forças fascistas do general Francisco Franco que impôs seu próprio auto-exílio da Espanha, permanecendo por 15 anos fora do país que ele considerava sua segunda casa.


