Quando Ernest Hemingway cometeu suicídio em sua casa de Idaho, no dia 2 de julho de 1961, ele deixou passagens aéreas para a Espanha e entradas para a corrida anual de touros de Pamplona em sua mesa.
Apenas a morte poderia fazer com que o conhecido autor americano perdesse seu passatempo favorito: a orgia de nove dias de corridas de touros e as festas que acontecem todos os anos no final de julho nesta cidade ao norte da Espanha.
‘‘Ele nos disse que viria e ficamos esperando por ele, que acabou nunca vindo’’, disse o escritor espanhol José Luís Castillo-Puche, um amigo íntimo de Hemingway.
Por muitos anos o Nobel de literatura compareceu fielmente às festas de San Fermin e até chegou a participar das loucas correrias em frente aos touros. ‘‘Ele gostava do êxtase coletivo de uma cidade enloquecida com a festa’’, disse Castillo-Puche, se referindo a Hemingway como ‘‘Ernesto’’.
Em vários de seus livros, incluindo ‘‘O Sol Também se Levanta’’, Hemingway trouxe a Espanha e suas festas para o palco mundial. Ele é visto como um dos maiores responsáveis pelos milhares de estrangeiros que invadem as festas de San Fermin todos os anos.
‘‘Sem dúvida ele foi a pessoa que teve a maior influência em fazer as festas de Pamplona tão famosas’’, disse o toureiro Antônio Ordonez, outro dos amigos de Hemingway.
A relação do escritor com a Espanha está sendo lembrada em Madri com uma exibição que presta homenagem a Hemingway, na frente do centenário de seu aniversário, no dia 21 de julho. Apesar de Hemingway ter na verdade nascido em 1899, os organizadores da exibição estão reconhecendo o falso ano de 1898 que ele colocou em seu certificado de nascimento para poder se juntar ao exército.
A exposição traz uma visão íntima de Hemingway e tenta mostrar sua fascinação pela Espanha enquanto ele desenvolvia sua reputação de bêbado e mulherengo.
‘‘É verdade que ele era um alcoólatra, mas geralmente estava mais bêbado de solidão do que de álcool. Ele era um gênio perseguido pela fraqueza’’, disse Castillo-Puche.
O autor de ‘‘O Sol Também se Levanta’’ e de ‘‘O Velho e o Mar’’ acreditava que havia encontrado nas touradas espanholas um reflexo da existência humana.
O homem que era apaixonado pelo risco, que ele procurou na guerra, em mergulhos no fundo do mar e em safáris na África, admirava as touradas devido à sua luta diária contra a morte.
‘‘Ninguém vive a vida ao seu máximo, exceto os toureiros’’, disse um dos personagens em ‘‘O Sol Também se Levanta’’, considerada uma das histórias das experiências pessoais de Hemingway.
Hemingway apaixonadamente seguia a temporada de touradas na Espanha, mesmo quando estava no exterior. Uma carta escrita do Quênia para um amigo de Pamplona, Juanito Quintana, mostra seu profundo interesse.
‘‘É possível para você me mandar as seguintes matérias da revista ‘O Anel do Touro’ sobre as touradas do norte e o retorno do toureiro Domingo Ortega?’’, escreveu Hemingway na carta que faz parte da exposição de Madri. ‘‘Eu sinto falta das notícias do que acontece em nosso planeta dos touros.’’
A exibição também mostra várias fotografias de Hemingway, algumas delas tiradas de diferentes frentes da Guerra Civil Espanhola, que ele descreve em ‘‘Por Quem os Sinos Dobram’’.
Hemingway sofreu tanto com a derrota dos republicanos pelas forças fascistas do general Francisco Franco que impôs seu próprio auto-exílio da Espanha, permanecendo por 15 anos fora do país que ele considerava sua segunda casa.

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