São Paulo, 21 (AE) - Já se disse, com razão, que o cinema norte-americano tem fixação por dramas de tribunal. Verdade, e isso é reflexo da vocação legalista de um país onde mesmo as relações pessoais devem ser ordenadas e mediadas pela justiça.
Aliás, Tocqueville já havia apontado essa característica como inerente à democracia americana. Mas, enfim, como tudo, ou quase tudo no cinema, os dramas de tribunal têm sido levados à mais deslavada banalidade. Enfim chega uma exceção que confirma a regra, "A Confissão", de David Jones, mesmo diretor de "Nunca Te Vi... sempre Te Amei".
Neste seu novo filme, Jones trata, com rigor dramático, as noções de culpa e responsabilidade e analisa como cada um desses termos se associa ao outro.
A história começa com duas linhas de ação paralelas. Numa, há a família judia praticante, com o pai, Fertig (Ben Kingsley), Sarah (Amy Irving) e um filho pequeno. Fertig é workaholic, religioso e mantém um senso de rigor moral pétreo. Sarah é apenas uma dona de casa obediente.
Na outra linha de ação, vemos Alec Baldwin como o advogado sem nenhuma preocupação ética, que deseja vencer a qualquer preço e só espera um bom caso que lhe renda votos para o cargo de promotor.
O filho de Fertig um dia adoece, o casal o leva a um hospital, mas os plantonistas estão muito ocupados para atendê-lo de imediato. O menino morre de uma crise de apendicite aguda. Seis semanas depois, Fertig mata a tiros o médico, a enfermeira e o atendente que julga responsáveis pela morte do filho. Bleakie, personagem de Baldwin, é chamado para defendê-lo. Pretende alegar insanidade.
O acusado recusa-se. Se for considerado louco, seu ato perderá o sentido. E qual o significado dele? Simples. Os funcionários do hospital erraram ao não atender um caso grave. Mereceram morrer. Fertig estava parcialmente certo ao puni-los e em parte errado ao tomar a justiça em suas mãos. Precisa assumir a responsabilidade e ser punido para que o equilíbrio retorne. Dilema moral - Esse, o dilema moral que move o filme. E que se torna tão mais interessante quanto mais estranho pareça a um advogado carreirista. De um lado você tem um imperativo ético meio primitivo, lei de Talião, olho por olho, dente por dente. Antigo Testamento, mesmo. De outro, o protótipo da modernidade, ou seja, a ausência total da noção de ética. Para um tipo como Bleakie, o próprio conceito ético não faz muito sentido.
Se esse impasse movimenta a história em seu começo, a contaminação de um personagem pelo outro faz a graça da trama da metade para o fim. Jones, felizmente, não cai no bom-mocismo habitual. Segue a transformação dos personagens de perto e faz com que eles pareçam críveis aos olhos do público. É um bom estudo de caso sobre a possibilidade de exercício ético na sociedade contemporânea. Uma opção que é tratada sem delírios utópicos e sem parecer um ato de heroísmo.
Fazer escolhas, e não necessariamente as mais corretas do ponto de vista prático, parece fazer parte desse universo moral que às vezes se acredita em vias de extinção.
Jones complica a trama pondo nela suspense e chantagem comercial envolvendo o abastecimento de água de Nova York, o que lembra um pouco o clássico noir "Chinatown". A introdução desse elemento é engenhosa porque cria um interessado em que Fertig alegue insanidade e portanto não seja mais responsável por suas palavras.
À primeira vista, essa subtrama, esse enredo policial secundário, parece artificial. Impõe-se como parte da lógica dramática porque "A Confissão" trata, finalmente, da palavra e seu valor. Jones, que já havia feito um belo filme sobre o valor sentimental de uma troca de cartas, reabilita agora valores como a confiança e o senso de responsabilidade. Não se sai nada mal.

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