A escritora Lygia Fagundes Telles garante não se preocupar com a velhice, tampouco com a morte só teme o que chama de ''doenças humilhantes''. ''Se consigo cumprir meu ofício com seriedade e paixão, não peço mais nada'', diz a autora, também avessa às comemorações. Assim, hoje, quando completa 80 anos, Lygia vai se refugiar em alguma cidade no interior de São Paulo, para descansar. ''Não se comemora aniversário de dinossauro'', brinca. ''Prefiro que lembrem os 30 anos do lançamento do romance 'As Meninas', que é mais importante pois se trata de um livro ainda muito moderno.''
A obra, de fato, é um dos pontos altos de uma carreira construída com um estilo elegante, ecos machadianos e um permanente estado de espírito que permite manipular a escrita com firmeza e serenidade. Desde sua estréia, em 1944, com os contos de ''Praia Viva'', Lygia criou um universo literário dominado quase inteiramente por personagens femininos. Mas ela vai além de escrever apenas de e para mulheres por meio dessas figuras, Lygia oferece ao leitor uma profunda reflexão sobre a condição humana.
''Não existe, na literatura brasileira, uma pessoa mais adorável'', atesta Ignácio de Loyola Brandão, escritor que se enfileira com Lygia no grupo dos autores contemporâneos que têm a escrita como testemunho da vida. ''Existem na literatura brasileira poucos textos como os de Lygia. Poucas histórias são tão penetrantes.''
O que os torna tão intensos é a busca da escritora, a partir de seus personagens, das respostas que dão sentido à vida e que permitem às pessoas descobrir a melhor forma de interagir com o mundo externo. Lygia também cria seres que não se livram da memória, vivendo imersos na temporalidade. Ou seja, ela utiliza a escrita para contar uma história, a própria história. ''Sou como Octavio Paz, que diz não ter biografia, mas uma obra'', disse a escritora, quando do lançamento de ''Durante Aquele Estranho Chá'' (Rocco), seu mais recente livro.
Nascida em São Paulo mas criada no interior do Estado, Lygia descobriu jovem o dom de contadora de histórias: assustava-se com os casos apavorantes narrados por uma pajem e, quando esta não pôde uma noite fazer o papel, assumiu ela mesma a função. ''Enquanto contava, deixei de tremer, me senti poderosa porque transferia para os outros o medo que me aniquilava, sim, me senti independente, forte'', conta em uma biografia publicada com ''As Meninas''.
Apesar do receio paterno (''É um profissão de homens''), decidiu tornar-se escritora e, quando a família se mudou para a Capital, na década de 40, cursou direito na Faculdade do Largo de São Francisco. Anos decisivos, pois se casou com o professor Goffredo da Silva Telles, estreou na literatura com ''Praia Viva'' e ainda publicou um segundo livro, ''O Cacto Vermelho'', obras que considera imaturas e boas apenas para medir as próprias forças.
Estréia mesmo, para ela, acontece com o lançamento do romance ''Ciranda de Pedra'', em 1954, que, segundo o crítico Antonio Candido, representa o marco de sua maturidade intelectual. Ao contrário da tendência regionalista que marcava a época, Lygia adotou a obra urbana com enfoque intimista, tratando personagens e temas de forma visceral. Seguiu-se uma fileira de livros de contos, com destaque para ''Antes do Baile Verde'' (1970), ''Seminário dos Ratos'' (1977), ''A Estrutura da Bolha de Sabão'' (1978), ''A Disciplina do Amor'' (1980), ''Mistérios'' (1981), ''A Noite Escura e Mais Eu'' (1998) e ''Invenção e Memória'' (2000).
Aproximou-se também do cinema por iniciativa de Paulo Emílio Salles Gomes, crítico, ensaísta, ficcionista e fundador da Cinemateca Brasileira, com quem se casou depois de se separar de Telles. Com ele, escreveu ''Capitu'', roteiro cinematográfico, livremente inspirado em ''Dom Casmurro'', de Machado de Assis. E para Salles Gomes dedicou ''As Meninas'', que publicou em 1973.
Trata-se da história de três universitárias, que se revezam como narradoras da obra durante uma greve estudantil: Lorena, fruto de uma educação esmerada, vive remoendo o passado; Lia, conhecida como Lião, ativista de esquerda dedicada à ação política clandestina; e Ana Clara, estudante de psicologia com sérios problemas existenciais. Aparentemente pouco movimentado, o romance concentra-se no retrato interior das três protagonistas e, por extensão, da moderna sociedade brasileira e todos os seus conflitos.
Lygia conta que se inspirou nas conversas dos amigos do filho Goffredo Telles Neto, então um adolescente. Atenta, incorporou desde detalhes do vocabulário dos jovens, que tratavam de drogas e sexo até a preocupação com as ações políticas radicais em uma época marcada pela repressão militar.
A atitude mais ousada, porém, foi incluir na história a descrição de uma tortura. Na época (1971), a escritora recebeu um panfleto que detalhava a violência física sofrida por um preso político. Impressionada, decidiu aproveitar o relato no romance que escrevia. Apesar do risco da censura, foi incentivada por Salles Gomes a desculpa seria que os personagens ganhavam liberdade no ato da escrita, o que impedia o controle de suas ações.
A prosa refinada e o tom intimista de ''As Meninas'', porém, despontaram como sua primeira e melhor defesa, pois o censor encarregado de analisar o romance, provavelmente um homem pouco afeito a preciosismos literários, liberou-o depois de ler poucas páginas, aborrecido com o que julgou falta de ação. ''É por conta desse tom contestatório que considero 'As Meninas' um obra ainda atual'', comenta Lygia que, com o livro, ganhou o Prêmio Coelho Neto da Academia Brasileira de Letras, em 1973. ''Ele é mais atual que o Fernandinho Beira-Mar'', brinca.
Além desse e de ''Ciranda de Pedra'', Lygia escreveu outros dois romances, ''Verão no Aquário'' (1964) e ''As Horas Nuas'' (1989). O que os une é o compromisso da escritora em ser testemunha de seu tempo e da sua sociedade. Na biografia que publicou com algumas edições de ''As Meninas'', a missão surge bem definida: ''Impossível localizar criação e criatura. Separar a obra do criador. Sei que há escritores que conseguem se explicar tão bem, esclarecer o lado escuro do ofício. Eu não. Escrevo e esse corpo-a-corpo com a palavra já me toma todo o tempo, que se faz mais curto neste cotidiano devorador.''

mockup