Walmor Chagas é um artista indignado - ao completar 55 anos de carreira como ator, ele decidiu comemorar escrevendo um monólogo em que revela sua devoção pela palavra escrita. ''Sou um profissional surgido antes da era da televisão, ou seja, época em que a formação se baseava na cultura impressa e não era afetada pelos avanços tecnológicos'', comenta ele que, pronto para completar 75 anos (em agosto), estreou na sexta-feira ''Um Homem Indignado'', no palco do Centro Cultural Banco do Brasil, em São Paulo.
Walmor sempre defendeu que o ator é o repositório da tradição oral e só pode exercer esta função em profundidade na própria língua. ''Como a imagem vem destruindo a palavra, corremos o risco de também destruirmos nossa tradição'', explica ele, que não buscou transformar o monólogo em um texto biográfico, apesar das semelhanças. ''Criei um personagem que pode ser identificado pelo cidadão comum e que pode alertá-lo sobre nossa vulnerabilidade cultural.''
A ação de ''Um Homem Indignado'' se passa em um estúdio alugado onde, em clima de reality show, um velho ator prepara a gravação da própria morte. Enquanto isso, conversa virtualmente com antigos companheiros de profissão, jornalistas, um político e até uma candidata a atriz. Quando escrevia, Walmor já planejava convidar um diretor que transitasse tanto no teatro como no cinema para dirigir o espetáculo. Foi quando surgiu o nome de Djalma Limongi Batista, parceiro de longa data - juntos, realizaram projetos como ''Labirinto'', ''Balança da Vida'' (1973), com direção de Flávio Império e que foi, na opinião de Walmor, o primeiro espetáculo multimídia brasileiro.
Assim, Walmor contracena com imagens de pessoas conhecidas, como o ator Ítalo Rossi e o diretor José Celso Martinez Corrêa, que interpretam a si mesmos, e com Amanda Maya, Luciana Domschke, Marcos Martini, Victor Wagner, Emerson Santana, Vinícius Ricci, Clemente Portela, que interpretam personagens de ficção. Já o político surge como personagem de animação e é ''assassinado'' pelo ator.
''Nessas conversas, quero mostrar como a televisão se transformou na professora dos mais jovens'', observa Walmor, que tornou-se seletivo ao aceitar papéis na telinha como o que faz em ''Mad Maria''. ''Agora, só interpreto personagens cujas falas já estejam escritas'', diz.

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