DATA - Uma lembrança muito viva
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 05 de agosto de 2003
Nelson Sato<br> Reportagem Local 
''O gato preto cruzou a estrada / Passou por debaixo da escada / E lá no fundo azul / na noite da floresta / a lua iluminou / a dança, a roda, a festa / Vira, vira, vira / Vira, vira vira homem / vira, vira / Vira, vira lobisomen..''.
Quem, entre os leitores mais madurões da Folha, não se lembra da bem-humorada canção dos Secos & Molhados? A música, ''O Vira'', foi a grande responsável pelo estouro do grupo alavancando as vendas de seu disco de estréia a ponto de pela primeira vez em dez anos desbancar Roberto Carlos do topo das paradas.
O show de lançamento do álbum foi em São Paulo no dia 6 de agosto de 1973. A data é histórica. Pelo menos para a música popular brasileira, que incorporou a seu patrimônio uma obra-prima repleta de poesias, preciosidades melódicas e cuja capa foi eleita recentemente a mais criativa já produzida no país numa enquete realizada entre artistas, fotógrafos e jornalistas.
O repertório misturava rock, flamenco e fado tudo temperado por guitarras, violões, flautas, gaitas e sanfonas. Além de ''O Vira'', trazia as belas ''Sangue Latino'', ''O patrão nosso de cada dia'' ''Amor'' e ''Fala''. Incluía ainda as não menos impagáveis ''Rosa de Hiroshima'' (música sobre poema de Vinícius de Moraes) e ''Rondó do Capitão'' (sobre poema de Manuel Bandeira).
No estúdio, durante as gravações, Ney Matogrosso, João Ricardo, Gerson Conrad contariam com as participações instrumentais dos músicos Zé Rodrix (do legendário Sá, Rodrix e Guarabira), John Flavin (futuro Arnaldo & Patrulha do Espaço) e Willie Werdaguer (ex-Beat Boys e Humauaca). O álbum vendeu 800 mil cópias, uma cifra assustadora para o mercado da época (Roberto Carlos só ultrapassaria a marca do milhão de cópias vendidas anos depois).
A versão em CD seria lançada com o encarte incompleto no final da década de 90 pela Continental. Mais tarde, em 2000, uma nova edição chegou remasterizada às lojas pela série ''Dois Momentos'' da Warner. Dessa vez, num CD duplo que trazia também o segundo álbum do grupo. No último domingo, o programa ''Fantástico'' da Rede Globo lembrou o aniversário dos 30 anos do disco de estréia mostrando uma entrevista desbocada de Ney Matogrosso sobre o motivo que ocasionou o fim dos Secos & Molhados.
''A causa foi o dinheiro'' afirmou ele, atribuindo a separação à ganância do ex-parceiro musical João Ricardo, que queria ver seu pai comandando os negócios do grupo. A gravadora Deck também planeja homenagear o debut dos Secos & Molhados com o lançamento de um álbum-tributo. O CD, previsto para sair até o final do ano, vai se chamar ''Assim Assado'' e reunirá regravações das 13 canções do disco original.
Entre os nomes que já registraram suas versões constam Pato Fu, Ira!, Raimundos, Pitty, Maskavo, Falamansa, Ritchie e Matanza. Arnaldo Antunes talvez seja o próximo a entrar no estúdio. Comvém lembrar que alguns dos artistas convidados sequer usavam fraldas quando ''O Vira'' transformou-se em hino da criançada.
A ''febre'', aliás, foi meteórica. Durou pouco mais de 1 ano, período em que lançaram dois álbuns, lotaram estádios e acabaram com o grupo. Na célebre capa, as cabeças do trio e mais a do percussionista Marcelo Frias aparecem servidas à mesa ao lado de pães, grãos de feijão, biscoitos, linguiças, cebolas e garrafas de vinho.
A imagem é impactante, assim como foram as primeiras aparições da banda na televisão e nos shows. Afinal, quase tudo no grupo era novidade para o público brasileiro, particularmente o figurino dos integrantes que pintavam seus rostos abusando de plumas, colares e brincos. Diz a lenda que a banda norte-americana Kiss teria se inspirado no grupo brasileiro para criar seu visual, também calcado em maquiagem e muita tinta na cara.
Havia ainda a atitude andrógina no palco onde as coreografias eram propositalmente provocativas. Após a separação, somente Ney Matogrosso conseguiu emplacar uma carreira solo vitoriosa, mas com um repertório bastante distante da ousadia e criatividade que marcaram o grupo original. João Ricardo, dono da ''marca'' Secos & Molhados, nunca admitiu a dissolução.
Lançou outros discos com o nome do grupo, mas sem nenhum sucesso. Gravou também trabalhos-solo, que estão disponíveis na Internet. Gerson Conrad também tentou manter-se na ativa, chegando a gravar um álbum com Zezé Motta. Depois, tornou-se arquiteto passando a atuar ocasionalmente como produtor musical.


