Vida de solteiro não é nada fácil. Você passa o Dia dos Namorados sozinho, enquanto à sua volta os restaurantes fazem fila na porta, a TV não pára de bombardear comerciais lembrando a data e todo mundo parece ter um par, menos você. Sem falar na cobrança das tias, avós e até da sua mãe para que você se case, constitua família e leve adiante o nome de seus progenitores. Pois agora a turma do eu-sozinho também tem o seu dia, e vai poder ir elegantemente à desforra, lotando restaurantes, comprando presentes para si mesmo e mostrando que é possível, sim, ser feliz mesmo sem ter uma cara-metade a tiracolo.
Pouca gente sabe, mas existe um Dia do Solteiro, comemorado em 15 de agosto, e que promete dar o que falar em breve. ''O mercado publicitário não demorou nada a descobrir um filão de consumidores muito promissor, com renda alta e que numericamente cresce a cada dia'', diz Suzy Cortoni, diretora da Comsenso, agência de pesquisa do Rio especializada em estudos do comportamento.
Os solteiros saem mais à noite, gostam de aproveitar a vida cultural das cidades, sempre que podem viajam nas férias e também acessam com frequência a internet muitas vezes para interagir com amigos ou conhecer pessoas. ''Quem mora sozinho tem demonstrado uma tendência em ter várias turmas de amigos, a da faculdade, a do curso de inglês, da ginástica, e assim por diante'', constata Suzy. A solidão já deixou de ser um fantasma para ser encarada como uma opção.
Tanto que existem até sites na internet que valorizam a condição acima de tudo. Um deles é o Solteiros por Opção, criado pela promoter paulista Ângela Robledo, de 24 anos. No Rio, um grupo de amigos lançou no Orkut, rede de relacionamentos virtuais, uma comunidade, a Equipe Cão, que também apregoa os lemas da solteirice, como ''antes só do que mal acompanhado'' e ''não preciso dar satisfação a ninguém''.
Os solteiros hoje também têm se sentido mais em casa. Afinal, morar sozinho já não espanta mais ninguém, e existe cada vez mais gente nessa condição. O IBGE mostra que atualmente existem no Brasil nada menos do que 52 milhões de pessoas solteiras ou descasadas. O mais espantoso é que o número de solitários cresceu 70% na última década, entre 1990 e o ano 2000, de acordo com o IBGE. Pertencem a esse grupo desde viúvos e separados até estudantes universitários e simplesmente quem nunca se casou por opção ou não.
Um estudo da Fundação Getúlio Vargas mostra que mais mulheres vivem sozinhas do que homens. O quadro se acentua principalmente na faixa dos 50 anos, quando o número de mulheres sem companheiros é o dobro do de homens na mesma situação. Quando ambos atingem 60 anos, essa proporção triplica. Para o economista Marcelo Néri, da FGV, os homens continuam preferindo mulheres mais jovens para se casar, o que em parte explica o fenômeno.
Também continuam valendo a impressão popular de que há mais mulheres do que homens na praça há mesmo. Na faixa dos 30 anos, a população feminina é 4% maior, numericamente, à masculina. Como as mulheres costumam viver mais do que seus pares do sexo oposto (em média, oito anos a mais), quando ambos atingem a casa dos 60 anos, essa porcentagem sobe para 13%.
A FGV chegou a levantar as capitais do Brasil onde a taxa de solidão feminina é maior. Não deu outra: as cidades mais pobres, com maior evasão de mão-de-obra masculina, são as que concentram mais mulheres sozinhas. É o caso da pequena cidade de Jussiape, na Bahia, que ocupa o primeiro lugar do ranking, numa das regiões mais pobres do Estado, de Teodoro Sampaio (também na Bahia, ocupando o 2º lugar), Anhanguera (outro Estado baiano, na terceira posição) e Recife, que ocupa o quinto lugar. Em todas essas cidades, cerca de 50% da população feminina mora sozinha.
Nada muito diferente do que acontece em outros países. Quase metade do número de mulheres nos Estados Unidos, por exemplo, não têm com quem dividir o cobertor. Estima-se que, em todo o mundo, 30% da população feminina viva só. Mas não são só as mulheres a não ter com quem dividir o cobertor. Tanto é que a indústria de consumo não faz diferenciação entre homens e mulheres na hora de lançar produtos voltados para os solteiros.

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