DATA - Um artista de atitudes surreais
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segunda-feira, 10 de maio de 2004
Nelson Sato<br> Reportagem Local 
O espanhol Salvador Dalí (1904-1989) tinha o ego maior que seu País. Bufão do surrealismo, foi talvez o personagem mais emblemático daquilo que o senso comum costuma associar à figura do artista louco. Sua trajetória incomum empilha bisbilhotices, meias-verdades e grandes mentiras que ele próprio ajudou a espalhar pela longa biografia.
''É difícil atrair a atenção do mundo durante meia hora, mas eu consegui essa façanha durante 20 anos, e todos os dias'' declarou o artista em seu ''Diário de um Gênio'', publicado em 1958. No centenário de seu nascimento, comemorado hoje em todo o mundo, não faltarão episódios pitorescos para ilustrar artigos em homenagem à efeméride.
Batizado Felipe Jacinto Dalí y Domenech, o pintor nasceu em Figueras, cidade catalã situada a 600 quilômetros de Madri. Na juventude, ingressou na Escola Nacional de Belas Artes da capital espanhola, de onde seria expulso por recusar-se a ser avaliado pelos professores. Foi a primeira de uma sucessão de atitudes rebeldes que marcaria toda sua vida.
Dali iniciou-se nas artes plásticas como um competente figurativista para logo em seguida aliar-se ao movimento surrealista. Em 1927, pintou o quadro ''O Mel é Mais Doce que o Sangue'', o primeiro marcado pela vertente. Mas foi uma exposição realizada em novembro de 1930 que o filiou definitivamente à corrente estética fundada por André Breton, Philippe Soupault, Louis Aragon, Paul Éluard e Benjanin Péret.
As telas traziam imagens alucinantes de embriões humanos, relógios ''moles'', figuras onírico-paranóicas e todo o repertório simbólico que despertaria a atenção até de gente pouco familiarizada com o universo de pincéis, cores, formas, galerias e museus. Sua passagem pelo grupo durou até 1939, quando a união com os surrealistas foi rompida com troca de acusações.
Na ocasião, o artista derivava de posições políticas de esquerda para a direita fascista. O ex-amigo e ideólogo André Breton criou o anagrama ''Avida Dollars'', numa estocada ferina para rotular a paixão de Dali pelo dinheiro. Este, em vez de protestar, tratou de capitalizar o apelido argumentando que tinha sido expulso do clube por ser surrealista demais.
Dalí podia perder um amigo, mas nunca a piada. Quando publicou o livro ''A Vida Secreta de Salvador Dalí'', provocou a demissão do então colega de movimento, Luis BuÀnel, que trabalhava no Museu de Arte Moderna de Nova York. Motivo: tinha assinalado no livro que o cineasta era ateu, o que na época significava o enterro moral do sujeito.
Já no olho da rua, BuÀel marcou um encontro num bar para ''lavar a roupa suja'' com Dalí. Furioso, a ponto de partir para as vias de fato, vê o pintor chegar pontualmente, pedir champanhe e fulminar com sua habitual verve corrosiva: ''Escrevi o livro para erigir um pedestal para mim, não para você''.
Mas foi em colaboração com seu interlocutor que o mestre catalão legou para a posteridade dois dos mais importantes filmes do surrealismo: ''Um Cão Andaluz'' e ''A Idade do Ouro''. Já entre suas telas mais destacadas pelos críticos figuram obras como ''Prazeres Iluminados'', ''Acomodações do Desejo'', ''A Persistência da Memória'' e ''Sono'' todas criadas entre as décadas de 20 e 30.
Há um consenso de que ele teria se autocorrompido a partir dos anos 40, fazendo alarde com blagues controvertidas e inundando o mercado de arte com pinturas-clichês. Foi a fase em que a acentuou o vedetismo e o destempero verbal, passando a privilegiar a promoção pessoal em detrimento da repercurssão estética das obras.
''Dali é uma droga, provoca vício. Quem vê minhas obras uma vez, retorna inevitavelmente. Sou um pintor do inconsciente coletivo, e os homens encontram em meus quadros aquilo que têm nas entranhas'' proclamou em 1979, no Museu de Beaubourg, em Paris. Durante toda a sua trajetória, foi amparado pela musa e mulher Gala, dez anos mais velha e que conhecera em 1929 quando ela estava casada com o poeta francês Paul ôluard.
A biografia da mulher, aliás, será contada esta semana em dois especiais exibidos pelo canal pago GNT. O primeiro programa vai ao ar na próxima quinta-feira às 22 horas. O segundo será exibido na sexta-feira, às 7h30 e às 18 horas. Dali, diz o folclore, a conquistou com um gesto insólito. Raspou as axilas, pintou-as de azul, rasgou a camisa e lambuzou todo o corpo com cola feita à base de peixe e excremento de cabra.
Gala não resistiu. Deixou o marido e acompanhou Dalí por 50 anos. Muitos atribuem o sucesso do pintor à união com a mulher. Ela que o teria apresentado ao ''grand monde'' dos anos 20 e 30. Ela que o teria obrigado a cumprir uma disciplina férrea de produção no ateliê. O artista só abandonou as tintas quando a doença o confinou a uma cama. Parou de pintar em 1983, um ano depois da morte da companheira. Em 1989, aos 84 anos, foi sua vez de partir.


