Elis Regina (1945-1982) faria 60 anos hoje. Consegue imaginar como ela seria e o que estaria gravando hoje? Bobagem. O que importa levar em consideração é o legado de uma das mais brilhantes personagens da cultura moderna brasileira. A voz de Elis não parou na transversal do tempo. E por ocasião do aniversário, isso será ressaltado nas homenagens. Uma delas será a da TV Cultura, que exibe, às 23h30, o programa Ensaio, gravado em 1973, com direção de Fernando Faro.
Elis teria muito de datas redondas a comemorar, além dos 60 anos dela e os 30 do segundo filho, Pedro. Há 40 anos, no dia 6 de abril, ela vencia o I Festival de Música Popular Brasileira, realizado pela TV Excelsior, cantando ''Arrastão'', de Edu Lobo e Vinicius de Moraes. No dia 19 de maio estreou na TV Record, ao lado de Jair Rodrigues, o programa semanal ''O Fino da Bossa'', uma referência da melhor música brasileira da época. Em 1965, Elis também lançou seus primeiros discos pela Philips um solo, um com Jair e outro com o Zimbo Trio , deixando definitivamente para trás a imagem de adolescente.
Dez anos depois provocaria rebuliço no conceito de produção de show musical com o histórico ''Falso Brilhante'', dirigido por Miriam Muniz e com cenários e figurinos de Naum Alves de Souza. O show estreou no dia 17 de dezembro de 1975 no Teatro Bandeirantes e ali permaneceu durante 14 meses, com uma média de 1.500 pessoas por dia. Inesquecível.
A evidência do interesse que Elis continua a despertar está no sucesso de crítica e público do DVD ''Ensaio'', o primeiro da cantora. Lançado pela Trama em novembro, já chegou à marca de 62 mil cópias vendidas. Levando em consideração que Elis não está mais aí para se esgoelar nos gugus e faustões, como certas 'axezeiras', a marca é mais do que respeitável. A versão remixada do clássico ''Elis & Tom'' (1974), em CD e DVD-áudio, ter fisgado 46 mil compradores é outra façanha, já que o preço da edição dupla a torna menos acessível e trata-se de um disco que muita gente já tinha.
Além disso, sem hipocrisia, não há como negar que a ascensão meteórica de sua filha Maria Rita deve-se em parte ao saudosismo dos fãs da mãe. As semelhanças na voz e na postura são testemunhos de sua influência. ''Elis chegou numa forma de canto que permanece contemporâneo. Tinha cadência, suingue e afinação fora do comum, além do timbre que era só dela'', avalia João Marcello Bôscoli. ''Não é saudável para nenhuma cantora se comparar a ela, mas observar e tirar lições.''
Bôscoli diz que sua missão é fazer qualquer coisa por Elis. O próximo passo é a remixagem do álbum ''Essa Mulher'', de 1979, nos moldes de ''Elis & Tom'', de impecável resultado. ''Essa Mulher'', em fase final de negociação da Trama com a Warner, está programado para sair no segundo semestre.
Primeiro disco de Elis pela Warner, foi marcado por uma mudança de imagem. Ela deixou o cabelo crescer, passou a se vestir com mais classe. ''A maquiagem realçava uma beleza suave. Gravou também um disco suave'', lembrou Regina Echeverria em ''Furacão Elis'' (1985). No repertório, sambas eletrizantes de Baden Powell (''Cai Dentro'') e João Nogueira (''Eu Hein Rosa!''), ambos com letra de Paulo César Pinheiro, um Cartola inédito (''Basta de Clamares Inocência''), a faixa-título de Joyce e Ana Terra, composições dos então novatos Guinga (''Bolero'' de Satã, também com letra de Pinheiro), Tunai e Sérgio Natureza (''As Aparências Enganam''). O grande sucesso foi ''O Bêbado e a Equilibrista'' (João Bosco e Aldir Blanc), logo batizado de ''Hino da Anistia''.
Há quem ache que Elis era maior do que o repertório que gravava, às vezes pela obsessão de lançar autores que nem sempre faziam por merecê-la. Uma de suas escorregadas célebres, que ela comenta no DVD ''Ensaio'', foi ter perdido a oportunidade de lançar Chico Buarque. Só que depois gravou 11 músicas dele, uma compensação e tanto.
Um deslize ou outro à parte, Elis foi parâmetro de qualidade e ousadia para compositores e intérpretes. ''Afora isso era uma pessoa com inteligência muito acima da média das cantoras. Na minha opinião quando ela morreu a cena musical brasileira desabou porque ela era o metro de todo mundo. Mas prefiro que ela tenha morrido cedo a vê-la gravando discos tolos'', sentencia João Marcello. Certamente ela daria uma daquelas sonoras gargalhadas se ouvisse hoje algumas de suas contemporâneas e a legião de imitadoras.

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