São Paulo - Poucas vezes em vida o cantor baiano Raul Seixas (1945-1989) pôde comemorar seu aniversário como esse de 58 anos, que seriam completados hoje. A data, ainda que sem o impacto das efemérides redondas, vem acompanhada do lançamento de uma música inédita do artista encontrada nos arquivos da gravadora Som Livre, videoclipe no ''Fantástico'', shows-tributos organizados por fãs em várias partes do País e projetos de levar a vida do roqueiro para as telas de cinema, ou da televisão. Um deles de Paulo Coelho. Tivesse nascido ''lá'', como sonhava e gostava de dizer referindo-se aos Estados Unidos e Inglaterra dos ídolos Elvis e Beatles, talvez já contasse com a sua própria ''Anthology'', compilação de material histórico do quarteto de Liverpool lançada recentemente em cinco DVDs e livro. Mas num momento de crise da indústria fonográfica e editorial, uma novidade como ''Anarkilópolis'', nome da música inédita que dá nome ao disco, com a assinatura de Raul, Cláudio Roberto e Sylvio Passos, não deixa de ser um acontecimento de certo peso. Mesmo tratando-se de uma sobra de estúdio.
Precursor do rock nacional com cara e atitude, Raul Seixas deixou um legado indelével na música brasileira e também, de certo modo, na literatura, não só nacional como mundial. Isso porque, junto de sua aparição como artista de sucesso, há exatos 30 anos, trouxe também para os holofotes e para o show-bizz o então desconhecido editor de revistas esotéricas Paulo Coelho, parceiro em suas mais bem sucedidas composições e que agora desfruta da imortalidade acadêmica. Quando naquele 1973 os dois saíram pelas ruas do centro do Rio de Janeiro para promover a música ''Ouro de Tolo'' e o álbum ''Krig-há bandolo!'', Raul e Paulo davam seus primeiros passos rumo à imortalidade, ainda que por caminhos diferentes. Considerado por muitos, entre eles o ministroda Cultura Gilberto Gil, um dos dez melhores discos já lançados no País, ''Krig-há bandolo!'' é um marco da música pop nacional. Com ele, o público começava a conhecer a fórmula que faria sucesso estrondoso em pelo mais três álbuns seguintes (''Gita'', ''Novo Aeon'' e ''Há Dez Mil Anos Atrás'') e que marcaria a carreira dos dois: fusão de ritmos, letras elaboradas, refrões de impacto e ironia.
De certa forma, essa ''Anthology'' à brasileira de Raul começou com o relançamento desses álbuns em uma caixa de CDs no fim do ano passado pela Universal e de outros dois pela ''Eldorado'', gravadora que o acolheu numa das muitas fases difíceis nos anos 80. E, como no recente episódio em que Paul McCartney inverteu os créditos da parceria com Lennon, aqui não faltam polêmicas sobre a autoria das canções da dupla Seixas/Coelho e fãs indignados com a revelação de que algumas letras de músicas foram feitas apenas pelo escritor.
Gostem ou não os fãs, o fato é que Raul tentou mais de uma vez, sem sucesso, retomar a parceria com o ''inimigo íntimo'', como ambos se declaravam. Mas apesar do fim da parceria, ainda nos anos 70, Raul Seixas conseguiu manter acesa a chama de sua paixão pelo rock com outros parceiros aos longos do anos. Ainda em vida viu crescer e alimentou o mito em torno se sua imagem até o definhamento (físico) num pequeno apartamento em São Paulo, onde, solitário, deixou a vida para entrar na história.

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