Anteontem mais um western chegou às telas do mercado americano. E chegou bem, com potencial de nominações ao Oscar. É ''The Missing'', que Ron Howard dirigiu a partir de argumento que reverencia um clássico irretocável do gênero, ''Rastros de Ódio'', do mestre John Ford. Há algumas semanas, Kevin Costner lançou ''Open Range'', dirigido por ele, outra escancarada homenagem aos grandes espaços exteriores, paisagem natural deste que já foi chamado com justiça de ''o cinema americano por excelência''. E para daqui a pouco se anuncia a estréia do ambicioso ''The Alamo'', de John Lee Hancock, outra versão da famosa batalha que John Wayne levou às telas há 43 anos. Apesar dos tropeços acentuados na fase final desta jornada secular, o western informa: está vivo, passa bem e, tomara, voltou para ficar, com autoridade e poder para provocar a imaginação dos cineastas.
Com absoluta certeza não há gênero mais genuíno, já que, ao contrário de outros, não surgiu em débito com a literatura, o teatro ou a música. Desde seu nascimento, com a primeira exibição em 1º de dezembro de 1903 de ''O Grande Roubo de Trem'', do pioneiro Edwin S. Portter, o western surgiu em estado puro, e os roteiros que serviram para cimentar os clássicos do gênero servem hoje como alimento para filmes de ação, aventuras ou ficção científica. Ou alguém tem dúvidas de que a saga ''Guerra nas Estrelas'' é um western nas galáxias? E que dizer da linha mestra do argumento de ''Matrix'', se não que se trata de um cyberwestern? Permanecendo apenas na superfície dessa questão, certo é que os valores que exaltam os westerns - honra, amizade, justiça -, bem como os aspectos negativos também incorporados por seus personagens - cobiça, racismo, violência e crueldade - podem perfeitamente ser extrapolados e se acoplarem com grande atualidade na maioria dos gêneros cinematográficos.
Western. A simples menção basta para que à memória voltem as imagens de uma iconografia que, praticamente desde o nascimento que se comemora hoje, o cinema soube tornar familiar entre espectadores de todo o mundo. É certo que os diálogos lacônicos, as paisagens áridas de dimensões panorâmicas, os estouros de boiadas e outros elementos visuais codificados (o saloon, os cavalos, as diligências) caíram em desuso nas últimas décadas, deixando esta coleção de imagens particularmente nostálgicas para quem as colecionou simultaneamente na memória afetiva, à medida que iam surgindo. Isto pressupõe certa desvantagem para o público mais jovem, privado do encantamento western durante longas temporadas.
Profundamente ligado ao cinema épico, às grandes gestas, aos heróis solitários, às grandes disputas, à economia capitalista consolidada nos Estados Unidos, ao longo do século 20, o western evoluiu sempre, desde seus primórdios. Orçamentos cresceram em busca do grande espetáculo, enquanto os argumentos variavam segundo a perspectiva histórica, mais ou menos complexa de acordo com a criatividade de dezenas de artistas. Dos primeiros heróis monolíticos com os traços de William S. Hart, Tom Mix ou Buck Jones, sempre puros e infalíveis, até a complexa ambiguidade dos cowboys modernos da época de ouro (1940-1960), sobretudo a partir dos aportes maiúsculos de John Ford, Howard Hawks, Anthony Mann,William Wyler, King Vidor ou Delmer Daves. E da revisão crítica do gênero empreendida a partir do final dos 60 pela contracorrente liderada por Sam Peckinpah, Arthur Penn e Abraham Polonsky, passando pela releitura hiperbólica de Sergio Leone e pelo mais recente neoclassicismo de Clint Eastwood, com seus mergulhos no território movediço da ambiguidade
O western, apesar de algumas impropriedades e incorreções políticas (o negro no contexto da história ficcionalizada e o índio como objeto descartável no mapeamento da colonização, vilipendiados respectivamente na dramaturgia esquemática que validou o racismo e o aniquilamento étnico), soube como passar pelo necessário revisionismo - e é bem provável que esta postura auto-crítica tenha em grande parte contribuído para o esvaziamento do gênero. Por mais erros que contenham no contexto histórico, muitos títulos permanecem como obras de grande qualidade, realizadas por criadores de extraordinário talento.

mockup