No dia 24 de junho de 1935, a vida do cantor e compositor Carlos Gardel, que fascinou o mundo com tangos que se tornaram antológicos, como ''Mi Buenos Aires Querido'' e ''El Dia Que Me Quieras'', era interrompida por uma tragédia. Após uma escala em Medelin, quando seguia de Bogotá para Cali, na Colômbia, rumo a mais uma de suas inúmeras apresentações, o avião em que viajava, ao ganhar velocidade para decolar, chocou-se com outra aeronave parada na pista, incendiando-se. No acidente, além de Gardel, morreram outras 16 pessoas, entre elas o brasileiro Alfredo Le Pera, que foi parceiro do cantor na composição de seus tangos mais famosos.
Em Londrina, a data foi lembrada e partilhada com os ouvintes da Rádio Universidade FM, pelo uruguaio Mário Labella, em seu programa ''Tango Mania'', veiculado aos domingos, às 21 horas, com reprise às terças, no mesmo horário. Tendo vivido ''a época de ouro do tango, nas décadas de 30 e 40'', Labella deixou-se envolver pela musicalidade urdida ''às margens do rio de La Plata'', e, além de divulgar em seu programa na rádio ''essa música muito rica e pouco conhecida no Brasil'', elegeu Gardel como ''o melhor cantor de tango de todos os tempos''.
Não só ele, naturalmente, uma vez que o cantor tornou-se um mito mundial e, mesmo hoje, passados 68 anos da tragédia com o avião, seu túmulo na capital argentina recebe flores todos os dias e, tal como Elvis Presley, nos Estados Unidos, sua morte é questionada, acreditando-se que, deformado por cicatrizes, ele apenas teria se negado a aparecer em público. Há quem diga, inclusive, tê-lo visto cantando, solitário, pelas ruas de Buenos Aires. Para Labella, no entanto, Gardel virou lenda justamente porque morreu ''em plena glória'', aos 45 anos, ''sem precisar confrontar-se com as lembranças do passado ou enfrentar as limitações da velhice''.
E o passado do cantor bem que poderia inspirar um sofrido tango. De nacionalidade francesa, Gardel nunca chegou a conhecer seu pai. A mãe, Berthe, foi expulsa da família e resolveu seguir para Buenos Aires, levando junto Charles Romuald Gardés, então com três anos de idade. A infância de ''Carlito'', por todas essas razões, foi difícil. Conta-se, inclusive, que enquanto a mãe trabalhava em casas de famílias abastadas, ele perpetrava pequenos furtos nas proximidades do mercado de Abasto. Jovem, saiu de casa para cantar em bares e cafés de categoria duvidosa. Mas foi ali, como conta Labella, que ele se encontrou e se encantou com o tango, ''na época, ainda uma música sem refinamento, típica da periferia, cheia de gírias''.
A parceria com o uruguaio José Razzano mudou o rumo dessa história. O tango ''Mi Noche Triste'', composto pela dupla, levou Gardel ao sucesso, ainda restrito às camadas mais populares da região da Prata, em 1917. Na década de 20, no entanto, tendo chegado à Europa, o tango, interpretado por Gardel, ''estourou'' em Paris, e só então ''foi aceito pela elite rioplatense'', conforme relato de Labella. Na época, a parceria com o brasileiro Alfredo Le Pera começava a dar frutos, o ''bandoneón'' firmava-se como o acompanhamento ideal da melodia plangente do tango e músicos com formação em conservatório refinavam as partituras, dando-lhes status de clássicos.
Gardel tornou-se, então, um astro, projetando-se em shows e nas telas de cinema, sendo citado como referência de beleza e charme, e como playboy, que frequentava corridas de cavalos e era assediado por mulheres famosas. Ao morrer de forma trágica, no auge da carreira artística, deu mais vida ao tango, que, para muitos, virou sinônimo de Carlos Gardel.

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